A estrutura da pessoa
O seu melhor conselheiro é superior ao tempo e ao espaço
- o conselheiro interior (o pai sábio)
- fé, esperança e caridade interiores
- a emuná (confiança numa pessoa)
- a consciência fora do tempo e do espaço
- a ordem dos amores
- ressignificar o passado
- as três pessoas
- a vida queimada como chama (doação)
- a luz imóvel e a relatividade
- Santo Agostinho e as Confissões
Trechos da aula
Esse meu Pai interior carrega esses três grandes dons, essas três grandes virtudes.
A filosofia, durante a história, chamou isso, na vida de um homem, de ouro do amores.
E parece inclusive que nós somos felizes em cumpri-la, e somente em cumpri-la.
Transcrição completa
o entusiasmo desse conselho interior que ilumina a minha vida. E só de pensar em seguir esse conselho do meu mais sábio homem, é óbvio que eu já tenho uma espécie de uma alegria por antecipação. Quando ele me aconselha, antes de eu realizar isso no mundo, tornar essa virtualidade em atualidade, É óbvio que eu já recebo uma espécie de um penhor de um prêmio futuro, que é o seu próprio conselho, que é o meu conselho. E esse meu sábio, que de uma certa maneira me espera cumprir essas ordens, ele é o portador dessa mensagem que me aconselhou, que é uma verdade que ele doa para mim.
Então, de uma certa maneira, ele vive assim, de uma crença em mim, nesse aqui que vai fazer, que vai realizar o conselho dele, uma espécie de fé, fé no sentido daquela emuná hebraica, confiança numa pessoa. Ele confia que eu vou seguir o seu conselho e eu confio no conselho dele. Eu estou aqui realizando o que eu fui aconselhado por esse meu sábio. E ele espera a minha ação no mundo, que é isso aqui. E ele, se derrama em mim, quase que se doando, para que ele morrendo, eu possa viver a vida dele.
Esse meu Pai interior carrega esses três grandes dons, essas três grandes virtudes. Uma confiança, no sentido dessa uma fé, essa espera em mim, uma esperança e essa doação, essa caridade interior. uma fé, uma esperança e uma caridade desse pai sábio meu interior. E, de uma certa maneira, só eu posso conhecê-lo. Só eu que estou aqui junto dele. E só ele que pode me conhecer. Afinal de contas, nós somos um só. Ele, eu e a relação entre esses dois. Sou eu, o ser humano, com essas três pessoas interiores.
Não é exatamente assim? que a gente se sente, por exemplo, quando uma pessoa tenta julgar a gente, julgar o que a gente pensa e fala, aí a gente simplesmente percebe que ela não sabe nada sobre a gente. Ou então que o sabe é muito pouco, porque eu tenho uma vida interior que é gigante, é um universo. Então é óbvio que as pessoas sabem isso aqui que eu estou fazendo, que elas sabem mais ou menos o que eu estou fazendo aqui. Eu vivo aqui, dentro de mim o dia inteiro.
De uma certa maneira, até quando eu durmo, o meu coração, essa minha consciência ainda vela, porque ela fica testando, testando o ator que está descansando ali, ela fica testando esse ator no mundo. É isso que acontece no sonho, por exemplo, quando você morre, você se alegra, você se empolga, Esse seu eu interior sábio, esse seu pai, ele tá organizando você e fazendo testes. De forma que quando você acorda, parece que você viveu intensamente e que você ganhou aptidões e capacidades e medidas novas. Como se você tivesse jogado um videogame.
Lá no videogame você não testa tudo. E se você faz errado e morre, tá ali, não aconteceu nada contigo. Você já sabe que se fizer aquilo, vai dar errado de novo. Então você tenta fazer diferente. Mas vamos deixar isso para um outro dia. A gente fala de sonho, sobre teste, videogame, leitura de uma biografia e a gente vai ver como isso funciona no enriquecimento da nossa imaginação. Agora é importante que a gente fale desse grande poder. Essa capacidade dessa nossa consciência, dessa nossa sabedoria interior, ela pode ser muito bem representada por uma história que eu já mencionei, daquela mulher que viveu momentos fantásticos com o marido dela quando eles se conheceram, namoraram, casaram, presenciaram o nascimento do filho e viveram uma vida comum, cheia de grandes momentos marcantes que davam o sentido da vida dela, uma grande alegria, e num determinado momento da vida dessa mulher, ela descobriu que o marido dela a atraía, que tinha outra mulher, outros filhos, e naquele momento, olha essa capacidade dessa mulher, ela fala assim, tudo foi mentira, as promessas do nosso casamento foram falsas, Ele tava me enganando desde o namoro, ele me enganava quando eu dizia que me amava, ele não ligava pros nossos filhos, ele pensava na outra mulher quando a gente se deitava.
Olha só o que essa mulher tá fazendo na vida dela a partir de um momento desse. Eu me recordo que uma vez eu tava num jantar, num jantar desses bem tradicionais, lá na Turquia, né? E no final desse jantar, Nesse local lá que parecia um palacete, tinha um grande corredor, e um homem com um apagador de velas, um snuffer, o nome desse apagador de velas, antigo, que tem uma espécie de cachimbo virado para baixo que a gente vai apagando as velas, ele foi passando por esse corredor, pelos castiçais e candelabros, e ele foi apagando E ele estava indo no sentido contrário que eu estava, então eu vi todo aquele caminho ali ficando escurecido até ele apagar o último e sumir naquela escuridão.
Percebam que essa experiência simbólica ela demonstra essa capacidade que essa mulher realizou na vida dela a partir da traição do marido. Ela pega consciência dela e agora fica nítido pra gente essa capacidade da consciência de tá fora do tempo presente ou de qualquer tempo desse espaço que a gente tá agora ou de qualquer espaço e muito além ela pode ir muito além na verdade até da minha memória né porque eu posso ressignificar qualquer fato da história nisso então essa mulher Ela pegou a consciência dela, que tem essa capacidade de, na vida, ter uma espécie de unipresença, de poder estar presente em todos os momentos da nossa história, do mundo.
Tem uma espécie de uniciência, porque parece que ela conhece todos os fatos, até mesmo os que estão fora da nossa vida. E ela também parece que tem uma uma onipotência de chegar lá naquele fato passado que já estava até de certa forma estabilizado e modificá-lo. Eu acabei de mostrar com a história dessa mulher para vocês uma potência destruidora, um poder que ela fez na vida dela que foi destruidor. Essa capacidade que nós temos em nós ela pode ser percebida com maior precisão quando você, em um determinado momento da vida, com um fato desses, que eu citei como sendo traição, mas que pode ser um outro fato, que faz você passear pela vida para ressignificar aquele fato através do que está acontecendo naquele momento, que pode ser uma experiência de morte, uma experiência de nascimento, uma grande mudança de vida através de um novo trabalho, de um grande amor.
A gente faz esse caminho, a gente pega esse nosso instrumento, essa nossa pessoa que tem essa capacidade e faz esse itinerário. Esse meu pai interior, nesse caso dessa mulher aí, esse pai interior dela, esse conselheiro, ele passeou pela vida dela destruindo tudo, não foi isso? Então, o filho que é ela, que atua no mundo, olha para a consciência dela, e o que a consciência dela fez na vida dela? Apagou tudo. Ela apagou todas as luzes da vida dela. E, de uma certa maneira, vai se entristecendo, vai apagando, vai tirando o ordenamento da vida e todo o sentido, no sentido de caminho mesmo, que ela tomou na vida.
Vai destruindo isso, vai destruindo a seta que norteia a vida dela. Essa moça que eu falei para vocês, ela se matou. Ela procurou fora, quando a consciência fez esse papel de apagar tudo, ela procurou fora dela. um outro sábio, um outro conselheiro que fosse melhor do que essa consciência dela que adoeceu. A consciência dela virou esse dementador, esse apagador de luzes interiores, de experiências internas dela. Então, ela foi procurar fora um novo conselheiro. O que acontece, na verdade, é que ela foi para uma terapia freudiana dessas, nada mais fez do que seguir o próprio conselho que o Freud escreve nos escritos dele, do final do tratamento dele, que é o suicídio e até mesmo o que ele fez na vida dele.
Então foi isso que ela fez, ela seguiu essa consciência exterior e essa nova consciência dela deu uma ordem para o ator da vida dela e foi o que ela fez. Em sentido contrário à experiência dessa mulher, Existe aquele homem que naquele mesmo jantar, no início do jantar, passeou pelo corredor escuro com uma vela, não mais com um apagador de velas, mas com uma vela. E ele foi andando e acendendo aquelas velas dos castiçais, dos candelabros, e a gente foi conhecendo aquele corredor, aquele corredor foi ganhando um sentido total e a gente foi vendo a finalidade daquilo ali.
A filosofia, durante a história, chamou isso, na vida de um homem, de ouro do amores. Quando descobriu o que Santo Agostinho estava fazendo quando ele escreveu o seu livro das confissões, o livro mais lido no ocidente durante mil anos, a sua autobiografia. Santo Agostinho pegou aquele coração dele que ficou em chamas, e passeou pela vida dele desde o momento que ele cita um bebê agostinho no colo da sua mãe sendo amamentado, olha que ele está além da memória dele, tá? Ele está caminhando pela memória da mãe e ele veio desde essa memória acendendo todas as luzes a partir de um fato que aconteceu na vida dele quando ele tinha lá seus 32 anos, né?
Então, de repente, ele parou ali A vida dele se iluminou e ele foi lá no início da vida para acender todo aquele corredor de luzes que estava tudo apagado, que estava caótico e sem sentido. Ele caminhou pelo mundo com o coração na mão, em chamas, acendendo todas as velas. Todas as velas que iam se consumir, que iam ganhar um grande sentido e virar uma grande labareda. Isso é importante? Esse simbolismo é importante? porque o fogo tem a capacidade de transformar tudo em fogo. Então, o que é essa capacidade na nossa vida?
É a capacidade que eu falei para vocês que transforma o momento do nosso café, o momento do nosso descanso, o momento da nossa atividade com a família, do nosso trabalho, é o que transforma tudo isso, uma chama, tudo em fogo. porque tudo tem o mesmo sentido, o mesmo caminho, como se a vida fosse uma chama só. Ele muda todas as naturezas e todas as substâncias nele mesmo, não é isso que o fogo faz? E essa luz, ela, de uma certa maneira, ela responde àquela descoberta de Einstein sobre a relatividade restrita.
Você só consegue viajar na velocidade da luz se você se tornar a própria luz, né? Então é o espaço e o tempo que se dobram e se movimentam. E a luz que permanece imutável, imóvel, como a consciência. Percebam agora a mudança que eu faço aqui na consciência. Você pode perceber que é a vida e a história, a sua e a do mundo, que convergem, passando pela sua consciência. E ela aqui, imóvel, dá sentido. pra toda a tua história e pra toda a história do mundo na tua cabeça a tua consciência esse teu eu interior que é mais sábio, que te aconselha ele tem uma fagulha desse poder de unificar a vida de dar um sentido pra vida, de ordená-la como ordenamento no sentido da virtude da ordem e como uma ordem imperativa que te diz assim, vida queime-se e ilumine, doa a tua vida sem se poupar, parece que nós somos capazes de receber essa ordem, né?
E parece inclusive que nós somos felizes em cumpri-la, e somente em cumpri-la.