A estrutura da pessoa
Feliz e amado viajante
- memória vs. imaginação operativa
- o roteirista (a primeira pessoa)
- a educação da imaginação
- a vocação da verdade (encarnar-se)
- o caminho da verdade (possibilidade→encarnação)
- a emuná (confiança numa pessoa)
- as três pessoas
- o controle da ação em curso
- a alquimia do mundo real
- o viajante de Emaús
Esta aula tem uma saudação inicial. A aula começa em 2:54.
“Então, olha só, sobre o que a gente está falando aqui? Sobre a memória e a imaginação da primeira pessoa, do roteirista.”
Trechos da aula
A vocação da verdade é essa. Ela vai se encarnar um dia. A verdade nasceu para isso.
É a imaginação que faz a gente realizar essa espécie de alquimia no mundo, que pega o chumbo e transforma em ouro.
Educação da imaginação é feita de guardar informações e da imaginação é de operar as informações.
Transcrição completa
Quando eu era jovem, ou pelo menos mais jovem, eu conversei com muitas pessoas na rua. A gente dava comida para um pessoal lá na Praça Tiradentes, na Praça 15 também, e algumas vezes o pessoal safou um papelão para a gente e a gente ficou por ali mesmo. O que eu gostava mesmo era de ouvir as histórias. Aquilo sempre foi uma maravilha para mim. como um bom jovem fleumático, que está derramando água para, de alguma maneira, dominar o ambiente. E a gente ficava ali, conversava, zoava, brincava muito.
Aquela zoação era muito boa. E aí tinha um rapaz que era muito bom de traduzir em palavras as experiências reais da vida. É claro, sempre vai entrar o problema aqui da Paralaxe Cognitiva, que é um dos nossos desafios de quando está ouvindo alguém. Mas esse rapaz era bom porque ele tinha feito artes cênicas. E isso ajudava muito quando ele estava falando das experiências de vida dele. Mas por que esse dia foi importante? Porque eu me recordo que Eu perguntei para ele sobre o planejamento da vida dele.
Qual espécie de roteiro ele estava seguindo ali? O que ele estava fazendo ali? E é aqui que eu quero começar. Ele me disse assim, eu nunca planejei isso aqui. Na verdade, eu não sabia que eu estava vindo para cá fazendo as coisas que eu fazia todos os dias. E aí foi me contando como é que as pequenas decisões foram tendo seus sucessos e seus castigos. Aquilo para mim foi muito bom porque eu me recordo que quando ele falou isso, foi mais ou menos na mesma época que eu estava lendo O Crime e Castigo de Dostoyevsky.
E absorver uma vida com essas nuances faz com que aquela história do livro realmente se encarne em você. tome os seus contornos na vida real. E esses pontos entram no que eu queria fazer uma distinção aqui, porque em breve a gente vai falar de coisas muito específicas separadas. Então, olha só, sobre o que a gente está falando aqui? Sobre a memória e a imaginação da primeira pessoa, do roteirista. sua cabeça, ouvindo todas essas histórias, às vezes você tá só sentado.
Tá sentado aí me ouvindo falar aqui. E a tua inteligência, de alguma maneira, tá se dilatando. A sua memória tá ganhando várias possibilidades. E, realmente, esse fato novo, quando eu conto esse fato, Olha, eu conto uma questão nova pra vocês, um problema do mundo real. Isso surge na cabeça de vocês como uma espécie de objeto de fé. Isso é a espécie da fé que eu comentei pra vocês da Emuná, que de alguma maneira existia no mundo egípcio, no mundo mesopotâmico e nos escritos dos hebreus. Que é a confiança numa pessoa que fala um discurso.
Então, começa a ganhar força essa possibilidade dentro da nossa memória, começa a ganhar força na fisionomia do mundo real. Então, a gente passa de possibilidade para a tal da verossimilhança, da verdade latina, da veritas. E depois, com o reforço do mundo que vai acontecendo, você vai falando, caramba, aquilo que eu ouvi uma vez, que está aqui na minha cabeça, realmente parece que acontece no mundo real. E vai acontecendo mais vezes, e isso vai tomando um contorno de probabilidades. Lembra quando eu contei dos escritos do Laibniz, o rei das probabilidades, o homem que escolheu os caminhos de Deus pela força das probabilidades?
Então, eu até respondi uma questão há pouco tempo sobre isso, com relação às religiões comparadas, que a gente falou. A vocação da verdade é essa. Ela vai se encarnar um dia. A verdade nasceu para isso. Ela vai tomando esse contorno em nós, ao longo da nossa história pessoal, até aquele momento derradeiro que parece que o mundo se abre diante dos nossos olhos e a gente tem a impressão que a verdade veio se entregar para a gente. Você não vai conseguir explicar isso para ninguém, nem traduzir isso em palavras.
Você só consegue degustá-la, prová-la nesse sentido, não demonstrativo. Esse caminho pessoal também é um caminho, de alguma maneira é um caminho que tem que ser encaixado, mas da própria história da humanidade, da evolução que eu falei para vocês, dos hebreus, da aletéia grega, e dessa veritas latina que no nosso direito junta as três, a verdade de quem fala, emoná, a verdade do próprio objeto, que é tirado do esquecimento, da aleteia, e a veritas, que é o próprio discurso, que ligam um e o outro. Então, um dia, quando a gente fizer isso, eu também vou precisar falar, em um momento, para vocês, só sobre o que é a mentira, para vocês compreenderem o que é a verdade, vocês vão ver que existe uma face da verdade que é relativa a cada pessoa, ao roteirista, ao personagem e à personalidade.
Então, em algum momento vai chegar essa oportunidade aí. Sim, a gente vai falar, sim, sobre a face do amor de cada pessoa, Haga, Piero, Esfilia, e eu também vou falar do mau funcionamento disso, da filáucia. Mas, vamos com calma. Bom, sem eu viver essas histórias, eu tava só ouvindo as histórias daquele rapaz ali. Então esse mundo da minha possibilidade se dilatava. Agora eu já sabia onde alguns hábitos iam me levar. Eu não precisava mais testar tanta coisa. Por quê? Porque ele já tinha testado pra mim.
Aquelas histórias todas, aquelas vidas, aquelas biografias todas que a gente leu, elas nada mais fazem do que dar ao nosso roteirista o pano pra manga, né? Do que ele vai construir pra gente. Esse passo do enriquecimento da memória, da memória, vai ser operado pela imaginação. Esse passo não pode ser substituído. E eu falo da memória aqui para não confundir os órgãos, as capacidades, os instrumentos, organon. Veja que as pessoas falam indiscriminadamente hoje em dia sobre educação da imaginação, sobre ler bastante, ouvir bastante, ver bastante, Mas olha só, essas coisas, os nossos sentidos, isso é a filosofia antiga aristotélica, eles formam a nossa memória.
É matéria de memória isso, é dado para a memória. A imaginação é operativa, é outra categoria, é outra grandeza física. As pessoas confundem isso, por isso que eu falo muito sobre taxonomia. Normalmente quem que sabe disso um pouco melhor? Biólogo, botânico. Eles conhecem isso porque eles precisam de taxonomia fenotípica e genotípica para poder generalizar e especificar, para dar nome às coisas que eles fazem. Então, olha só. A memória, ela conhece cavalo, ela conhece boi e guarda. Cavalo e guarda boi. De uma maneira que depois a gente vai falar.
Se primeiro generaliza, se primeiro especifica, mas é isso. O que que a imaginação faz? A imaginação pega cavalo, pega boi, pega uma parte de cada um, junta cavalo com chifre do boi e monta o quê? Unicórnio. Vai achar unicórnio no mundo real? Olha o papel, memória e imaginação. Isso tá lá no roteirista, tá? Vai achar isso no mundo real? A formação da imaginação usa memória, mas ela só educa dentro do processo do mundo real. Ou seja, ler, ouvir histórias e vidas dá a base de dados da memória.
Só que a imaginação operativa que opera isso, ela é testada e formada no mundo real. É a imaginação que faz a gente realizar essa espécie de alquimia no mundo, que pega o chumbo e transforma em ouro. É assim que a gente resolve todo tipo de problema, né? Lembra de eu tentando fazer meu filho não subir a escada? Eu peguei um armário e deitei o armário lá. Alquimia do mundo. Pegando materiais de memória. Caramba, como é que eu posso fazer isso? E usando imaginação. É por isso que o jovem que joga videogame e vê muita TV, ele tem mais memória do que eu e que você.
O problema dele é o seguinte. O problema dele é a operação da imaginação. Por quê? Porque o mundo real, o mundo que ele opera, é virtual. E a alquimia que ele tenta fazer no mundo real não se encaixa, não funciona. No videogame, quando dá errado, ele tem outra vida, né? No mundo real, não tem. Não tem. Então, guarda isso. Educação da imaginação é feita de guardar informações e da imaginação é de operar as informações. E aqui entra o nosso segundo problema. O primeiro problema é o que a gente vai falar com relação à leitura dos clássicos, a por que que eu tenho que ler muita biografia e quais tipos de coisa que a gente tem que fazer.
Que tipo de informação que você vai operar no mundo real. Então, olha só, perceberam que eu acabei de juntar através da imaginação, a primeira pessoa que vive aqui dentro, com a segunda pessoa, o personagem que vai interpretar esse roteiro, o roteirista que deu o plano e o personagem vai atuar no mundo, quando os dois se juntam, quem aparece? A terceira pessoa, a personalidade. Existe, sim, essa ambiguidade, essa tensão entre o mundo da sua imaginação, que está operando com sua memória, e o mundo onde seu personagem vive, onde você pode falar, colocar sua mão, atuar, construir, interpretar o seu roteiro.
No mundo militar, é muito bonito quando se fala que um excelente planejamento não resiste ao primeiro disparo, ao primeiro tiro. Tu vai pra guerra, tudo planejado, quando ouve o primeiro disparo, pum, tem que mudar tudo ali, e começa a nossa caque, o controle da ação em curso. E a vida real é assim, planejou tudo de manhã, Pensou, pensou, pensou, quando você vai sair pro mundo, sair de si, pra interpretar aquilo no mundo, quando vai sair de casa, aí a dor de barriga acaba com tudo, não é isso?
Aquela fisgada no estômago já faz você voltar pra dentro de casa e começa a espiral aí de dar tudo diferente do que você planejou, né? Mas olha só, isso é uma maravilha. Isso é a aventura da vida real, né? Felizes daqueles que conseguem sorrir quando isso acontece. porque de alguma maneira eles vão perceber os mistérios de um roteiro que compreende todos os roteiros. Um dia, um dia a gente vai estar andando e de repente se lamentando do nosso roteiro da vida, das dores de barriga, e quem sabe não vai aparecer um viajante que vai olhar para a nossa tristeza, vai observar que a gente anda por aí sem sorrir mais, e vai contar um pouco do roteiro que compreende o nosso roteiro.
Talvez ele conte isso pra vocês a caminho de Imaúj. Vocês encontrem com ele andando por aí. Quem sabe o coração de vocês não começa a pegar fogo quando ele contar pra vocês sobre o roteiro. E aí, se vocês convidarem esse viajante, esse roteirista, Se vocês convidá-lo para jantar com vocês, o que será que ele pode fazer por vocês? Eu já encontrei em alguns lugares. Um dia, foi a caminho da Praça Tiradentes, da minha Emmaus. Então, fiquem atentos aos roteiros e aos roteiristas.
De alguma maneira, um dia a gente pode olhar para o nosso roteiro como um menino que tá sentado no chão e olha a sua mãe fazendo o tricô dela, né? Olha pro alto, vê aquela estampa pelo lado de baixo e percebe que de alguma maneira tá estranho, tá feio. Aí você fala assim, mamãe, como tá feio essa estampa? Tá tudo torto, as linhas tão todas tortas. e de repente a mãe vira a estampa ao contrário, né? E num breve momento você pode olhar as coisas de cima e você percebe que tá ficando perfeito.