A estrutura da pessoa
A unidade do homem na unidade do tempo
- as três pessoas (roteirista, personagem, personalidade)
- consciência antecedente e consciente consequente
- o roteiro do dia
- a substância humana (ousia)
- a persona grega
- a personalidade que narra a biografia
- o exame de consciência da noite
- as três dimensões do tempo (futuro/presente/passado)
- imagem e semelhança
- o personagem no palco da vida
Trechos da aula
Então está aí desenhado o terreno, o campo onde a vida humana acontece. É um campo com três pessoas vivendo.
Três pessoas diferentes vivendo no mesmo campo, na mesma usia, na mesma substância humana.
Eu me olhei no espelho e vi o homem como imagem e semelhança de um ser em três pessoas com uma só substância.
Transcrição completa
Tudo bem, pessoal? Vamos à luta? No início da manhã, eu sento para pensar em um roteiro para o meu dia, uma espécie de folha de um livro que um dia será chamado de A Vida do Diego Reis. Então, nesse momento que eu pensei sobre isso, sai de cena o roteirista, que você poderia chamar de consciência antecedente, de forma inexata, porque essa cena é vivida por uma pessoa inteira, sou eu inteiro que planejo esse dia, e não por uma consciência somente.
Sou eu mesmo que estou ali sentado, tomando café ou meditando, ou indo para o trabalho no ônibus, ou dirigindo, e estou montando esse roteiro. E, obviamente, a maioria das pessoas não faz isso, não monta roteiro nenhum para viver. Praticam primeiro esse grande exercício de vida assidiosa, depois passa a ser vida sem sentido, e, por fim, vida depressiva. Elas, de alguma maneira, colocam um personagem em um palco no mundo real e falam assim para ele, se vir aí para cumprir qualquer papel que aparecerem na sua frente.
Mas, enfim, vamos voltar para a tentativa de uma vida com um sentido, ordenada, ou seja, com um roteiro para o personagem tentar interpretar isso durante o dia, no palco da vida. E foi isso que eu fiz. Agora que isso está pronto, na minha cabeça, vai entrar em cena o personagem. Exatamente a persona grega, que vai para o palco ver o roteiro. Essa pessoa não vive mais no mundo do imaterial do roteirista, né? Agora, agora é real.
Essa pessoa, o personagem, ele é de carne e osso. Enquanto o roteirista planejou chegar no trabalho no horário, ligar o computador, ver seus e-mails, um roteiro simples, né? O personagem dormiu no ônibus, passou do ponto, chegou atrasado, E logo depois, no trabalho, eu devia chamar o técnico de informática, porque o computador não está ligando. A vida real é um espetáculo. E ainda você, agora que as pessoas chamam de consciência consequente, você para e faz um discurso, monta uma biografia.
Eu planejei chegar na hora e eu não consegui fazer isso. Eu montei o roteiro e não cumpri o meu roteiro. Agora, quem está falando isso? É a terceira pessoa que está olhando o roteirista e o personagem. Esse outro, você, que consegue falar sobre esse relacionamento do roteirista, e do personagem que tentou cumprir o roteiro, esse você é o relacionamento entre o você imaterial, o roteiro, a ideia, e você material, o personagem que atua no mundo. Essa relação é a terceira pessoa, é a sua personalidade.
Ela é formada pela sua ação, a do personagem e a sua intenção, a ideia do roteirista. Quando sua vida tem essa ambiguidade interna, chega na hora, tenta chegar na hora, não consegue. Quando roteirista e personagem não conseguem dar a cabo um roteiro possível e bem interpretado, A personalidade que há esse relacionamento interior em você, ela sofre. Mas quando dá certo, é ela que também fica feliz. É você com a cabeça no travesseiro, no final das contas. E meu dia pode, enfim, ser narrado pela consciência consequente, também de maneira inexata, porque é a pessoa inteira que narra.
É a minha personalidade. A dona da narrativa, da biografia da minha vida. Eu queria ajudar, eu planejei ajudar, o roteirista falou pra eu ajudar, mas na hora de fazer isso, eu atrapalhei. E aí eu sofro, eu fico triste. Eu planejei ajudar e consegui, mesmo ficando muito cansado. E então eu fico feliz e realizado. Essa é uma vida específica da terceira pessoa. Então está aí desenhado o terreno, o campo onde a vida humana acontece. É um campo com três pessoas vivendo.
Aqui está o nosso mundo interior. É aqui que acontece o drama da nossa vida, a aventura da nossa vida. Em filosofia existe um termo chamado substância, que normalmente é encarado de maneira muito complexa. A palavra em latim, substância, que é a tradução da palavra grega ouzia. Em grego, a palavra ouzia significava o que? O campo, onde a vida acontece, a plantação, as sementes germinam, as lágrimas caem. Esse campo, essa ouzia é a substância da vida humana.
É um campo que é um corpo material, personagem, e um roteirista imaterial. E é aí que, obviamente, mora um aspecto genuíno da vida humana. Os idealismos, por exemplo. E no personagem mora um outro aspecto genuíno também. O pragmatismo, o positivismo. E por aí vai. Um dia a gente vai posicionar isso também. E a relação entre eles e a sua personalidade. Três pessoas diferentes vivendo no mesmo campo, na mesma usia, na mesma substância humana. Três pessoas que são diferentes, mas que não se separam.
É a mesma. A mesma substância, no mesmo campo. E também não se misturam. Esse é o nosso universo, a complexidade da vida humana. Cada pessoa dessas com a sua própria vontade, sua própria razão, sua própria liberdade, seu próprio bem, sua própria beleza, seu próprio amor, sua própria verdade, seu próprio espaço de vida. seu próprio tempo. Olha a beleza e a grandiosidade disso. Existe uma pessoa em mim que vive no futuro.
O roteirista sempre planeja o da frente. Ele está sempre pensando no futuro. Ele vive sempre lá na frente. Existe uma pessoa em mim que vive no presente, atuando no palco, o personagem. E existe uma pessoa que só se expressa, se manifesta no passado. A personalidade que conta a história da tua vida à noite, lá deitado no teu travesseiro, de como foi o relacionamento da sua ação com a sua intenção. É o nosso exame de consciência da noite. E esses três são um ser somente. a unidade, o homem.
E desde o uso da persona grega, da hipóstasis, à nature rationalis individua substantia, de Boécio, muito comentada depois por São Tomás de Aquino, pelos escolásticos, as evoluções feitas em cima disso por Ricardo de São Vítor, E mais tarde também, já no século XVI, por Descartes, depois Locke, Kant, Hegel, Brentano, Lotz, Nietzsche, as escolas mais recentes, Orteg e Gasset, na escola espanhola, o Laval, na escola francesa, a espécie do ser inacabado de Heidegger, da escola alemã, na escola austríaca, Essa axiologia moderna também, que tem saído muitos livros agora, do ser relacional, do Lopes Quintas, e a própria descrição das doze camadas da personalidade do Olavo de Carvalho, a tentativa, passando por tudo isso, a pretensão é dar uma resposta que atendesse a todas essas tentativas desses homens, as grandes descrições sobre ser humano e pessoa humana.
E essa aqui é a minha contribuição, que nada mais é do que semelhança de triângulo. Eu me olhei no espelho e vi o homem como imagem e semelhança de um ser em três pessoas com uma só substância. E a partir disso, a gente vai tentar aprimorar as ciências humanas onde nossos olhos puderem pousar, tá bom?