Coletânea

Vida do espírito

A filosofia do dia a dia

1:28:03 · ~88 min de aula09 de janeiro de 2025Transcrição automática · em revisão
  • filosofia do dia a dia / filosofia clínica
  • justiça comutativa vs distributiva
  • a verdade que se encarna
  • o mundo da lógica = só o possível
  • as três pessoas (roteirista / personagem / crítico)
  • a ideologia (a ideia que veste o homem)
  • o virtuoso antes do intelectual
  • conhecimento por presença
  • a vocação de dominar (domino do ambiente)
  • falsos domínios (materialismo com cheiro de morte)
  • ser amado por uma presença antes da doutrina
  • escravo do bem / o pecado como mira errada
Citações verbatim

Trechos da aula

a vocação da verdade, da perfeição da verdade é se encarnar
— Prof. Diego Reis
o homem antes de ser um intelectual, ele precisa ser virtuoso
— Prof. Diego Reis
A gente sempre é amado por uma pessoa antes de ouvir doutrina.
— Prof. Diego Reis
Palavra por palavra

Transcrição completa

Transcrição automática · em revisão

Boa noite, senhoras e senhores. Primeira live do ano de 2023. De volta às lives. Nem lembrava. Quando foi a última? Bem-vindo, Ronald. Assombroso, nosso grande herói. Assombroso, hoje vamos conversar com um colega seu aqui. O homem é brabo demais. Davi Valdeci. Boa noite a todos, Rubem, Matheus, meu querido. Hoje o papo é, plagiando meu amigo assombroso, hoje o papo é assombroso. Vamos falar sobre filosofia cotidiana. Cara que entrega um conteúdo de filosofia que é do dia a dia, que é uma filosofia ao alcance de live surpresa, isso mesmo, Matheus.

Foi live surpresa por conta da minha incompetência, estou precisando de uma secretária. E vou ter o prazer de receber aqui o Diego, que é um cara que dispensa apresentações, quem acompanha ele lá sabe do valor do conteúdo dele. E é um tempo que eu estou tentando, a gente está tentando organizar essa live e hoje vai ser um prazer receber ele aqui. Vamos esperar ele entrar. Daqui a pouquinho deve entrar. Nem lembro mais como é que faz live, rapaz. Olha lá, outro me cobrando aqui de ver os vídeos.

Vou ver a Nagatomi. Verei. Não sei se o Diego tá aí, no meio de nós, mas vai aparecer porque ele é um homem da pontualidade também. Juliana, querida, como vai? Aline, bem-vindos. Eu nem lembro mais como é que faz o convite aqui, deixa eu ver se mudou o negocinho. Aguardemos.

Olha ele aí. Diego, meu cara, acho que você vai ter que... Ah, já pediu. Tá ele aí. Salve, Diego. Boa noite. Fala, meu amigo. Boa noite. Deixa eu botar meu fone aqui, que eu esqueci desse detalhe. Tá me ouvindo bem, hein, Rafa? Perfeito. Acho que todo mundo... Tá tranquilo. A imagem também tá boa? Tá ótimo. Tem um quadro aí, interessante. Não dá pra decifrar, não, mas acho que você vai gostar. É importante, esses bonequinhos aí são importantes para o pessoal entender as coisas Esses palitos aí é brabo Legal, bacana Vou apresentar aqui você para o meu público Diego Reis, comando anfíbio, paraquedista, pai de cinco filhos, casado, filósofo clínico, psicoterapeuta, parteiro de emergência Rochedo demais, quem não conhece não sabe que ele fez o parto do terceiro, não foi?

Foi, o terceiro. O terceiro foi no carro. Enrolei na farda. Nasceu e te enrolou na farda. Muito rochedo esse cara. Cara, bem-vindo. Hoje eu vou ter oportunidade de tirar muitas dúvidas minhas. Eu que engatinho aí na filosofia, vou ser um cara que apresenta um conteúdo muito bacana, mas eu vou dar as boas-vindas e deixar você falar também a sua introdução, por favor. Claro. Bom, meu amigo, mais uma vez te agradeço pela generosidade de estar participando contigo. Eu já vi que o teu perfil é uma maravilha, tem uma interação gigante, faz um trabalho imenso com o pessoal do Direito.

A gente vai conversar um pouquinho sobre Sobre essa nossa tentativa, a minha e a tua, e alguns aspectos da situação atual, o que a gente vem tentando fazer, né, Rafa? Isso aí, eu estou cheio de perguntas para você. O público aqui é eminentemente de advogados, então em tese é um público que aprendeu filosofia na faculdade, mas só na tese, e eu me incluo, quando eu faço crítica à classe eu estou sempre incluído. Muitos têm uma ideia de uma filosofia de muita erudição, muita discussão, discussões intermináveis sobre o conceito filosófico de um ou de outro, sobre a vida dos filósofos.

E você foi o primeiro cara que eu vi no Instagram apresentando uma filosofia do dia a dia. Por isso que eu até sugeri o título de filosofia cotidiana, porque você traz uma filosofia de ideia e vida prática, uma análise, exame de situação, uma consciência muito bem formada a respeito do papel e tudo mais, e apresenta essa filosofia do dia-a-dia. Aí vem a primeira pergunta de leigo total. O que seria filosofia clínica? Porque eu vejo sempre as pessoas falarem de professor de filosofia, mas poucos se colocam como filósofos.

Eu vi no seu perfil filosofia clínica, É isso? É a filosofia aplicada? É clínico? Ou é uma análise? Me explica essa ramificação, se é que eu posso chamar assim, por favor. Então, meu amigo, eu vejo que muito da minha experiência que me levou a buscar esse tipo de coisa, ela já me transformou num buscador da filosofia nesse aspecto que eu aplico aí. Então você vê, eu sou militar de carreira e eu sou fuzileiro naval da Marinha, entrei na Marinha desde 2002. Eu vou fazer agora, dia 20 de janeiro, 21 anos na Marinha.

Então, eu tinha 15 anos nessa época, ô Rafael, E eu estudava muito exatas. Eu estudava exatas, mas eu estudava exatas com profundidade. Além de fazer os concursos que eu fazia na época, eu gostava muito de fazer Olimpíadas. Olimpíadas de Matemática, Física, Astronomia, que foram as minhas três primeiras grandes paixões. Então isso, inclusive, a gente vai falar em algum momento quando eu falar numa espécie de justiça distributiva Eu pretendo falar sobre isso contigo Isso me protegeu de muita coisa, inclusive Ter esse primeiro contato com esse tipo de matéria Porque eu como esse tipo de estudo, que é o estudo para a Olimpíada, quem já fez essa coisa sabe Que a gente vai para a Olimpíada não é para aplicar a fórmula de Bhaskara para resolver uma equação no segundo grau Lá na Olimpíada aparece assim, prove como a gente conclui que a fórmula de Bhaskara resolve uma equação no segundo grau, entendeu?

Então tipo assim A coisa é mais profunda, né? Então já tem uma espécie de... a gente entra um pouco numa espécie de filosofia matemática, sabe? E é óbvio que existe isso. Basta a gente ver, por exemplo, o que estudou Pitágoras e a vida dele, sabe? O tipo de filosofia que ele fez, né? Então você vê. Eu, nesse caminho, eu quando passei para o Colégio Naval, eu passei em primeiro lugar no concurso, né? Na época tinha uns 16, 17 mil candidatos, eu fui o único candidato do Brasil que conseguiu acertar todas as questões de matemática, né?

Então, obviamente, assim, sem muito lá-lá-lá, É óbvio que eu tive um certo prestígio, sabe? Eu era aquele meio cedefe que às vezes estava lá no cursinho e tal, quando eu levantava a cabeça eu via que a galera estava ali olhando como é que eu estudava, o jeito, é óbvio, é normal que isso aconteça, né? Se a pessoa quer passar e quer um resultado e está vendo uma pessoa que tem, é óbvio que ela vai ficar ali olhando e tentando copiar algumas coisas. Então isso lá no colégio naval, que era em internato, onde eu vivia de segunda a sexta-feira, e assim fiquei durante pelo menos oito anos da minha vida, colégio naval, escola naval, e depois durante a viagem de ouro, obviamente que a gente, lá a gente não tinha celular naquela época, eu lembro que a gente enfrentava uma fila aí de uma meia hora, uma hora, pra botar o cartão lá no orelhão, em ficha, né?

E conseguir ligar pra casa, assim, sabe? Então você vê, meu amigo. Você falou pra gente falar um pouco de amizade, essas coisas, né? Quando a gente tinha um problema, Rafael, não tinha outra solução, cara. Até porque se tu ligasse pra alguém, eu lembro que o cara ficava falando com a namorada, assim, o cara da fila, ia falar, pô, Guerreiro, pô, manda um beijo aí e vambora, pô. Tem que falar com a minha família, entendeu? Então tipo assim, a gente meio que só tinha um ao outro lá, sabe?

Então acabava aqui. Eu que gostava de ficar no meu canto. E aí, ali com uns 15 anos ainda, eu fugia um pouco pra capela lá do colégio naval, que era um lugar que eu conseguia ficar sozinho. E aí eu lembro que alguns dias eu meio que ia para lá e sem livro, eu ficava resolvendo questão russa de Olimpíada e de um livro Eureka, de problemas de matemática. Aí eu lembro que algumas vezes eu esquecia e certa vez eu esqueci e fui lá e peguei a Bíblia, sabe?

Que foi o grande momento da mudança, minha mudança para as humanas, entendeu? Tipo assim, eu abri a Bíblia a primeira vez no Sermão da Montanha, o capítulo 5 de São Mateus. Que inclusive fala da justiça, né? Felizes os aflitos porque encontrarão justiça Felizes os mansos porque possuíram a terra Felizes os que têm fome e sede de justiça porque serão saciados, sabe? Então eu falei, cara, isso aqui é um baita de um problema também, né? Que eu nunca parei pra pensar, eu tô aqui na física, na matemática, sabe?

E aí foi com 15 anos que eu comecei a tentar ver esse tipo de problema, e eles sempre aconteceram para mim, Rafael, encarnado na vida das pessoas. Muito diferente do que eu encontrei anos depois, na vida acadêmica, que é chegar lá e ver o problema da amizade em Aristóteles, que ainda tem muito vínculo com a realidade. Mas vamos supor, os problemas kantianos, crítica da razão, pura, crítica da razão prática, e a gente vai entrando... Peraí, aí você já está falando da faculdade de filosofia. Isso muitos anos depois, é só para a gente fazer um contraponto, para a gente tentar entender um pouco hoje algumas coisas que são minha percepção do que acontece.

Então, olha só, eu estava lá resolvendo questões do tipo o seguinte, o meu amigo chegava e falava, pô Diego, o Reis, que é meu nome de guerra, É, pô, terminei meu namoro, cara. Fim de semana. Pô, tô tristão, tô pra baixo. Aí eu ficava pensando, cara, sobre o problema desse cara, entendeu? Eu ficava olhando e eu falei, cara, quem que fala sobre isso, né? Eu tenho que sair agora aqui dos matemáticos do filho. Aí eu vou lá e falo, cara, quem que pensa sobre amizade? Então eu fui muito por problemas reais, entende o Afonso?

Então a minha filosofia, eu sempre a busquei pra resolver esse tipo de problema. Eventualmente, Quando eu tentava resolver certo tipo de coisa e esbarrava em São Tomás de Aquino Eventualmente eu comecei a conhecer os problemas não da justiça comutativa Das coisas que estão mudando e que a gente fica sempre no balanço da justiça tentando achar o direito, o reto Mas era aquela coisa, porque você vê como é diferente assim Acho que o pessoal vai entender perfeitamente isso que eu estou falando São Tomás de Aquino diferenciava muito bem a justiça comutativa da justiça distributiva, sendo que hoje eu considero um grande calcanhar de Aquiles dos nossos advogados e das pessoas que adentram pelo direito não conhecer as riquezas da justiça distributiva.

O que é isso? Bom, a justiça comutativa é a nossa briga do dia a dia, né? É a gente ficar tentando assim, bom, eu posso vender aquele bolo para aquele cara por R$10 Só que se eu vender para aquele outro por R$10, ele não vai comprar porque ele não tem dinheiro Vou vender por R$5 Aí o outro cara fala assim, pô, mas isso é injusto Por que custa R$10 para ele? Porque a gente está tratando de bens materiais, né? A gente está tratando de uma troca, de uma comutação Só que eu consigo fazer isso contigo, né Rafael?

Só que 2 mais 2 são 4 para o pobre, para o rico, para o feliz, para o infeliz, para o branco, para o negro Então existe uma justiça Que ela sempre é feita, queira você ou não, né? 2 mais 2 é sempre 4, você entende? E eu vinha muito dessa justiça, você percebe? Que são as ciências exatas, o mundo metafísico É, a tentativa de explicar a prova de Deus pelas cinco vias de São Boaventura, depois abraçado por São Tomás de Aquino, que você já percebeu, né?

Que é uma parte extremamente desprezada pelo pessoal hoje. Não é isso? Essa justiça imutável, né? Que dá uma segurança tremenda pra gente. Que dá uma segurança tremenda Você vê, ontem mesmo eu tava conversando com um rapaz Que tava me falando da sensação de às vezes ele tá indo bem na vida espiritual Às vezes tá indo mal, às vezes isso, às vezes aquilo E a preocupação dele com a igreja e de tudo mais, né? Eu, a primeira vez que eu li a Bíblia, que foi nesse ano aí, em 2015, quando eu te falei Eu falei assim, cara, como é que eu vou ler esse livro aqui?

Aí eu peguei um método que até do falecido recentemente Monsenhor Jonas, a Bíblia, que ele ensinava a dividir a leitura da Bíblia em três pilares, um pilar chamado princípios eternos, o outro chamado ordens de Deus e o outro chamado promessas de Deus. Então lá nos princípios eternos eu escrevia o quê? 2 mais 2 são 4. O que eu escrevia lá? As portas do inferno nunca prevalecerão sobre a igreja. Isso, cara. Aconteça o que acontecer e isso é um dois mais dois são quatro, você percebe? Isso é uma justiça distributiva.

A justiça distributiva não é trocada entre mim e você. Ela é dada por alguém que está acima de nós e que distribui. E que distribui à medida que a graça dele, que a bondade dele, a benevolência dele quer dar pra gente. E não adianta falar, pô, mas eu sou melhor do que ele. Essa justiça de cima fala, pois é, dois mais dois são quatro, pra você e pra ele. Você vê, existe uma... Isso, isso. Eu tô tentando explicar aqui de uma maneira popular, você percebe, né?

Porque realmente essa é a minha Seara. Você entendeu, Rafael? Fazer com que as pessoas realmente, no dia a dia, quando elas estão angustiadas, porque elas estão vendo a justiça que elas anseiam, que gera a aflição do Evangelho pra elas, né? Felizes os aflitos, porque serão saciados. As pessoas que, às vezes, olham para tudo o que está acontecendo ao redor dela E vão vendo tudo ruir e a esperança delas vai ruindo junto, sabe? O que que fica? Ela precisa conhecer as riquezas dessa justiça Então, aí entra na questão da verdade, do amor à verdade, né?

Porque quando a gente conhece essa verdade e proclama essa verdade O que a gente aprendeu a chamar, grosso modo, ou na teologia, de um ato de fé, né? Um ato de fé É E você vê, há uns anos atrás eu recebi uns e-mails Hoje em dia eu não sei se ainda tem isso, porque o e-mail é menos usado, né? Mas tu lembra dos e-mails que tinha assim, Rafael? Quando você estiver triste, recite essa frase Quando você estiver angustiado, recite essa frase Quando eu olhei aquilo, eu falei, cara, aquilo é um remédio Aquilo ali foi chamado por Evagrio Pontico, um monge lá do Oriente Aqui no Ocidente a gente conhece os sete pecados capitais por São Gregório Magno No Oriente, eu morei uma época lá no Oriente Médio, no Líbano Eles conhecem os oito lorismois de Evaglio Pontico, que tem os sete pecados e mais a soberba, que não é considerada pecado capital.

Evaglio Pontico criou um método chamado método antirrético, que é um método que a Juliana já decorou. Minha aluna de todos os cursos, uma das minhas melhores alunas, a Juliana já botou ali o antirrético. O método antirrético é você proclamar uma verdade, uma justiça imutável Que te dá uma segurança quando toda justiça imutável está te fazendo ficar desorientado no mundo, você percebe? Então você já percebeu nitidamente que hoje falta para uma pessoa que adentra o direito essa segurança, né? Bom, ela vai conhecer o mundo da justiça Então a gente percebe nitidamente que uma pessoa que começa a entrar no mundo da justiça sem uma estrutura fixa, ela vai viver numa espécie de mundo, numa espécie de terremoto, né?

O meu chão tá tremendo. Esse é o direito comutativo, na verdade. Não é assim? Que a gente fica lutando e fala, cara, como é que pode? Hoje eu fui botar gasolina Pô, R$4,90. Amanhã eu fui... Ontem eu fui botar gasolina, R$6. Antes de ontem eu fui botar gasolina. Cara, como é que se planeja um roteiro de vida assim? Entende? Como é que a gente se desvencilha do caos do dia a dia para tentar ter uma ordem que é essencial para a nossa vida? Eu que tenho várias crianças, uma das coisas sem as quais elas não sobrevivem é a ordem, que a gente chama hoje de um dos pilares dos quatro hábitos, sabe?

Então hoje, o que eu faço hoje, meu amigo, é tentar sistematizar Essa experiência que eu tenho buscado nesses 21 anos, você entende? Eu depois cheguei no mundo acadêmico, depois de um tempo. Só fazer um parênteses, só de falar. Mas essa aplicação prática é a filosofia clínica ou eu estou viajando? Essa é a filosofia clínica, que hoje, o que eu entendo... Quando eu fiz uma pós-graduação de filosofia clínica, Aí você tem lá as matérias que são consideradas como métodos clínicos de aplicar a filosofia. Ele falou, cara, uma das matérias é chamada maieutica, que é o quê?

Que é o que a gente aprendeu com a vida de Sócrates, de tentar parir a verdade, a palavra grega, maieutica, que era a profissão da parideira. Eu vou tentar parir a verdade. Você vê, a filosofia, como a gente concebe no seu fundador, Você percebe que ele estava tentando resolver essas questões, né? Eu acho uma maravilha, um dos livros que eu mais me debrucei na vida foi A República de Platão De onde a gente via a primeira vez formulada uma teoria geral do direito no capítulo 2 Aquela coisa que, infelizmente, muitas pessoas do teu meio desconhecem, né?

Infelizmente, assim, porque Você vê lá um homem... Sabe quando que eu percebi que eu tinha que me debruçar sobre aquele livro, Rafael? Quando Glaucon e Tracímaco estão atopetando o Sócrates, né? Escrito lá por Platão E Glaucon fala assim, Sócrates, você que dedicou uma vida ao estudo da justiça Eu falei, porra Meu amigo, tem alguma coisa aqui nesse livro, entende? Tem um cara que se debruçou uma vida sobre a justiça e o direito E ele vai falar a experiência dele Então o que eu acho muito bonito é que Sócrates está resolvendo esses problemas do dia a dia Você vê que ele está ali, eles estão vindo, eles começam a conversar Aí tem uma festa à noite, aí ele fala de um cara que é mais rico e está sentindo uma angústia Ou se ele não se sente culpado Ou se o pai do Glaucon, ele é um senhor Mas ele é um senhor e ele tá contente com a vida que ele levou Então eles vão discutir por que ele tá em paz e não tá angustiado E ele conhece outros senhores que vivem angustiados, sabe?

Então eu aprendi essa filosofia A filosofia que Aristóteles dizia que era uma espécie de... Porque é uma espécie de animidade, né? Tem o radical filia Uma amizade com a sabedoria, né? Entende? É um dos nossos tipos de amores. A filosofia é um amor, é uma filia. Assim como a filia, os gregos, ou C.S. Lewis, quando fala dos seus quatro amores, coloca filia. A filosofia é um desses amores. Então, é um amor humano para levá-lo à excelência, à felicidade. A filosofia é um movimento humano, sabe? Ela é um movimento humano.

Você viu, Rafael. Então, como é que eu, por exemplo, explico esse movimento humano da filosofia? Que é um amor a uma sabedoria que tá vivendo essa justiça normal do dia a dia E que tá querendo colocá-la num patamar de durabilidade Onde a gente nunca mais perca esse amor Ainda que tudo nesse mundo possa ruir A gente coloque Os nossos amores num degrau acima, onde eles fiquem intactos Assim como eu faço com o filho Quando tudo tá desordenado, eu abraço meu filho como quem fala assim Meu filho, pode cair tudo, mas o papai vai proteger você Eu vou fazer você durar As coisas vão cair aqui em volta, mas eu tô contigo Você entende?

A gente quer fazer isso com as coisas Aí você vê, Rafael, eu começo a explicar isso na minha palestra, na live da verdade que tá aí, pela experiência, uma experiência do café, né? Ou então explico com o meu filho brincando de carrinho, assim, sabe? Você vê. O meu filho brinca de carrinho e eventualmente deixa o carrinho largado pela sala. Aí eu falo, bom, ele tem um prazer com o carrinho, o carrinho dá uma felicidade pra ele. Dentro da maturidade que ele tem, o carrinho é uma grande coisa, né?

Então eu penso, bom, se ele tem esse amor pelo carrinho, um amor prazeroso, que os gregos chamariam de amor erótico Não no sentido freudiano de sexual, mas no sentido de sensibilidade, de sensível, sensual Então ele tem esse amor pelo carrinho, então eu faço testes com o amor dele em que sentido? Eu tento fazê-lo desposar o carrinho, assumindo uma responsabilidade No sentido latino da coisa, né? De res exponsa, no sentido de coisa esponsal, de esposo Ou de re mais expondere, que é uma promessa. Responder é uma promessa.

O carrinho me promete felicidade e eu faço a promessa de fazê-lo durar. De guardá-lo na prateleira, porque se ele não guardar, o meu pai some com ele. E nunca mais nós teremos esse amor. Você entende, meu amigo? É isso que a gente vai fazendo na nossa vida, né? Quando a gente encontra determinados bens, a gente tenta disposá-los primeiro pela responsabilidade. Então são os meus primeiros sacrifícios por esses primeiros amores Eu aprendo a me doar por ele para que ele dure mais Aí eu falo do café, meu amigo Eu tomo um café e eu quero te contar o café Eu sempre dou o exemplo lá de quando eu morei na África, em São Tomé e Príncipe Porque lá o café é muito gostoso, nas roças, feito quase que artesanal Então você vê, talvez você nunca tome esse café lá de São Tomé e Príncipe Mas eu consigo tentar aqui, apesar de eu tomá-lo e ele já ter esse desfeito dentro de mim, né?

Eu virei um pouco esse café, né? Eu tento elevar esse café a um patamar onde nada mais possa destruí-lo O que é isso pra gente? É transformá-lo num conceito, numa ideia Então eu tô aqui, eu posso falar pra você uma hora sobre esse café E você vai saber que existe um café muito gostoso em São Tomé e Príncipe Só que qual que é a coisa que eu sempre falo sobre a verdade, né? Que a vocação da verdade, da perfeição da verdade é se encarnar, né? Eu posso te falar uma hora sobre esse café Mas quando que você vai saber exatamente sobre a perfeição do juízo, da justiça desse café?

Quando você tomá-lo Entende? Então são esses detalhes da nossa vida, do cotidiano, que sempre me chamaram atenção na filosofia. Entendeu, Rafa? O que me chama a atenção, aí eu vou falar da sua pessoa, do seu perfil, do que você ensina. Primeiro é essa verdade das coisas, matemática que você tem, esses conceitos que eu acho que a filosofia é muito isso, pegar a verdade imutável, que independe da vontade do homem, aquilo que está lá e ninguém vai mudar, efetivamente é verdade, e trazer isso na prática, observar essas verdades no cotidiano.

E aí eu acho que o grande obstáculo disso é que não é só o amor pelo saber, tem que ter um amor com utilidade nessa contemplação da vida, utilidade da vida. Então você contempla aquele acontecimento do carrinho e direciona os acontecimentos da vida, que no final das contas é a ordem que você está buscando. Então não é só um acúmulo de saber, eu sou péssimo em gravar esses nomes de filosofia, Deviam simplificar isso aí, apelidar tudo, porque me confunde tudo. Mas eu acho que o grande desafio, e você me corrija se eu estiver errado, é a questão da consciência, da noção da nossa ignorância, de como talvez a nossa personalidade possa atrapalhar a alcançar essa percepção filosófica do mundo real e a aplicação do ideal na vida real também, porque senão eu acho que pode ficar algo estéreo.

E se a gente consegue contemplar e aplicar filosofia para o nosso cotidiano profissional, pessoal, familiar, eu acho que é diferente do que a gente vê nos meios acadêmicos com gente ouvindo, estudando sobre a história dos filósofos ou algum pensamento ou outro, mas pouca aplicação. A maioria aprende com cabos eleitorais que dão aulas em faculdade e fica meio distorcido o negócio Mas é correto a gente achar que a filosofia não tem uma utilidade sem essa consciência, sem esse autoconhecimento, sem um propósito e que a gente não consegue aplicar o conhecimento real ou por um auto-engano numa experiência existencial real Não sei se eu me fiz claro.

Ela é possível você ter contato com a filosofia e ser estéreo por não conseguir aplicar como você aí aplicou no café, aplicou no carrinho, no dia a dia. Eu tô errado? Porque é isso que a filosofia me toca nisso. Quando eu consigo transformar a minha realidade, a minha forma de observar as coisas, porque o estudo em si me parece inalcançável. Nunca me debrucei, já tentei, mas é muito difícil para mim. Mas esse tipo de comportamento filosófico de análise e dentro da sua realidade conseguir analisar 360, aquela situação, analisar de fora, isso para mim é uma filosofia que me encanta e eu acho que é muito que eu vejo lá nos seus ensinamentos.

Estou enganado? Então, meu amigo, não está não. Essa percepção, olha só. Eu vou te contar Algumas coisas práticas aqui para você perceber uma coisa que Aristóteles já tinha percebido há muitos anos. Olha só. Às vezes eu atendo umas pessoas que vão levando certo tipo de vida, vida prática, e aí elas sabem Ou já por uma experiência pessoal delas, ou porque elas veem outras pessoas sendo felizes Então de alguma maneira elas sabem que certas coisas parecem que vão nos fazer felizes Então vou te dar um exemplo aqui Eu estava atendendo um cara que na cabeça dele Ele via assim, cara, as pessoas felizes que eu conheço são pessoas que têm fidelidade pelas suas esposas, trabalham bem e tal Aí ele estava perseguindo isso, entende?

Como roteiro de vida, né? Então você vê, ele fez um juízo na cabeça dele, um juízo simples, assim como o juízo de o café de São Tomé e Príncipe é gostoso, é um juízo, né? Segunda operação da lógica, é um juízo. Bom, o cara fez... As pessoas que são fiéis às suas esposas e trabalham bem são felizes, fez esse juízo. Quando a gente faz um juízo, meu amigo, essa nossa crença, pelo método indutivo, que é o método natural do pensamento humano funcionar, uma das nossas operações de busca da verdade, você pega essa fé, que é uma experiência do passado, e joga ela para o futuro.

O sol nasceu ontem, nasceu antes de ontem, nasceu antes de ontem. O que você espera? A sua esperança é que ele vá nascer amanhã. Então você está vendo pessoas felizes, que trabalham bem, que estudam e tal. Aí isso vira tua esperança. Aí você faz um roteiro. Pô, vou ser fiel à minha esposa e vou tentar trabalhar bem. Meu amigo, o que acontece eventualmente aqui comigo quando eu estou atendendo certas pessoas, Rafa? Olha que coisa interessantíssima. O cara tá aí dez anos, às vezes, tentando ser fiel à esposa, se libertar de pornografia e masturbação e tal.

Essas coisas todas que hoje em dia é bem uma realidade, né? Da galera. Aí o cara, dez anos que ele tá lutando, e o personagem dele no mundo, aquele que vive, tenta viver esse roteiro, tá tomando porrada dia após dia. O que significa isso? Ele não tá conseguindo. Entende? Não tá conseguindo. Amigo, o que acontece dentro da gente se eu fizer um roteiro para o meu dia e chegar no final do dia, eu olhar, fizer um exame de consciência e pensar assim? Vou criticar agora, né?

Então o personagem apresentou o roteiro no palco lá, conseguiu, né? E agora um outro cara que olha pra esses dois, pro roteirista do dia do Diego e o personagem que viu, ele fala assim, pô, esses caras são uma pessoa só. Eu olho pra trás e eu vejo que eu fui quem eu deveria ter sido. A gente se sente em paz, né? Eu chamo isso de alegria da terceira pessoa. A alegria da primeira pessoa é que quando eu aprendo sobre a fidelidade, sobre o trabalhar bem, só em pensar que isso vai me fazer feliz, só a esperança de um dia viver isso, a esperança já traz uma alegria lá do futuro, né?

Você já percebeu os momentos de alegria que a esperança dá, né? Quando o personagem tá no palco vivendo isso, no meu dia aqui com a minha família, com meus filhos, um dia que já foi alegria pra mim como esperança, né? Eu sinto prazer em viver aquilo, o que eu chamo de alegria do personagem, de quem está presente agora vivendo E depois eu olho para trás e eu tenho a famosa sensação do dever cumprido, que fala no mundo militar A gente fala assim, eu estou me sentindo em paz, né?

E o cântico de Simeão, das completas diárias da liturgia da igreja E agora eu posso descansar em paz porque meus olhos viram a vossa salvação, sabe? Eu tô feliz, tô em paz, entende? Essa alegria da terceira pessoa Sendo que se eu olhar pra trás e perceber que o roteirista e o personagem não são a mesma pessoa E em sentido contrário, eu fico triste, né? Parece que sai uma força de mim que me suga pra terra e meu ombro já cai, entende? E eu deito na cama já derrotado, entende?

É uma espécie de depressão, a tristeza, sabe? A minha energia vai embora, é consumida e eu fico ali naquela tristeza da não realização, de não ser eu mesmo Então você percebe que assim como os monges antigos falaram que existe um princípio material no homem, um princípio que eu chamo hoje de princípio do personagem, que eles chamavam de filáucia, um amor de si. Contra si, ou seja, uma busca do prazer que nos destrói, entende? Tipo assim, eu sei que as drogas estão me destruindo Só que eu não consigo largar as drogas porque elas me dão um prazer momentâneo Então isso é um amor louco por si mesmo, né?

Você naquele momento querendo se salvar vai se matando, sabe? Existe essa filálsia pelo prazer, né? Na nossa psique existe esse mesmo princípio que tenta nos salvar da destruição psíquica Ou seja, se você está dia após dia chegando à noite e vendo que você não é você mesmo Que o seu roteiro não é o mesmo que o seu personagem bota para você Meu amigo, só tem duas soluções para você se livrar disso Ou você consegue, o personagem consegue esse roteiro Ou você pega o roteiro e encaixa no personagem.

O que significa isso? É um cara que depois de 10 anos traindo a esposa, ele chega para mim aqui numa consulta e fala assim, eu acho que também não é bem assim, também não precisa ser tão fiel assim. Eu falo, olha o que está acontecendo com esse cara, Rafael. Ele está mudando a verdade para que a verdade dele, a fé dele, Permita ele fazer um novo roteiro, um roteiro mais animalesco, você percebe? Um roteiro de bicho. Para que ele consiga... Para que o personagem dele possa ser um bicho que é, e ele consiga de novo falar assim, eu sou o bicho que eu desejo ser.

E ele se protege psicologicamente, entende? Você percebe que a gente faz isso com a nossa vida? Então, enquanto o problema não está no... no roteirista e no crítico, tá só no ator tem salvação, porque quando macula o roteirista já complicou o negócio. Meu amigo, aí tá uma coisa que Aristóteles escreveu de maneira cabal e que ferra a nossa filosofia de hoje. O que que eu tô falando pra você, cara, na prática? que um cara viciado e não virtuoso, ele não pode fazer filosofia, porque ele vai amar a mentira, porque a mentira faz com que ele pelo menos possa fazer a psique dele não se desesperar.

Você entende o que eu estou te falando? A gente aprendeu a chamar isso de ideologia. O que é a ideologia? A ideologia é a ideia que veste o homem, e não o homem que veste a ordem do mundo, a ideia da verdade. Muitas vezes bem elaborada, mas sem substância de verdade. Meu amigo, então que beleza que é quando Sócrates tenta explicar para Glaucon e Tracímaco o que é a justiça. Quando ele fala assim, Sócrates, você que estudou justiça a vida inteira, me explica como é possível a gente amar a justiça pela justiça mesmo e não porque ela me dá um benefício pessoal.

Ou seja, me explica sobre uma justiça imutável e não a justiça comutativa. O que Sócrates faz? Ele fala, olha só, vamos fazer o seguinte, Deixa o homem de lado e eu vou te explicar como é que funciona o mundo E aí ele dá a introdução ao que a gente aprendeu sobre tudo sobre governos Porque ele começa a montar uma cidade desde os guardiões e vai explicando a educação dos guardiões Ele monta a cidade inteira, localiza a justiça dentro da cidade, ou seja Ele é uma espécie de cara que fala assim, cara, tudo tá mudando aqui embaixo, entendeu?

Olha pro céu que lá tudo é fixo. Tudo é fixo. Então quando a gente vê a ordem do que é fixo, a gente vê com tudo que tá lá em cima que se parece com a gente. E a gente se ordena por aquilo que tá parado. Entende? Aquilo vai curar a gente. Aí ele vê uma ordem de uma cidade inteira e depois aponta o que é a justiça dentro do homem. Você percebe que a gente aprendeu hoje a fazer o contrário, né? Sim A gente pega a nossa justiça que tá permeada das nossas doenças Porque a nossa psique vai nos proteger contra ela, e a gente transforma a nossa justiça na justiça do mundo.

A gente veste o contrário. A gente veste o roteirista com o nosso personagem animal. Entende? Então, Aristóteles falava, o homem antes de ser um intelectual, ele precisa ser virtuoso. Senão ele não vai eternizar a verdade. Ele vai eternizar a mentira, porque a mentira é o seu amor. Entendeu, meu amigo? Maravilhoso. Isso é maravilhoso. O que hoje você espera de um cara que vá para o direito e vá tentar fazer uma justiça perfeita? Perfeita a esses moldes do que a gente pode com dois, mas dois são quatro.

O que a gente espera de um cara desse que não tenha fidelidade à sua esposa? Tu acha que vai sair um amor? É, entende? Não é muito difícil, não, da gente perceber como é que a coisa funciona, assim, sabe? Então você vê as pessoas falando E eu vou te falar, isso que eu tô te falando, meu amigo Isso me deu uma grande tranquilidade quando eu adentrei a academia, né? Pra fazer uma faculdade de filosofia Porque a minha angústia de ver as pessoas pregando e falando tudo que elas estavam falando É, já me mostravam que elas não estavam falando sobre a verdade imutável Mas que elas estavam falando de um amor louco que elas têm por elas mesmas E que elas precisam tentar enfiar aquilo no mundo Porque senão elas nunca vão dormir em paz Entendeu?

Então você vai abrir aqui uma brecha para eu já encaixar minha terceira pergunta. Mas antes eu vou fazer um registro aqui. Você falou da sua aluna. Olha o comentário da minha aluna Juliana também. Provavelmente não aprendeu no meu curso. Lembra a prudência segundo Aristóteles e São Tomás de Aquino. Ser prudente no aqui e agora. Aplicação da razão prática no dia a dia, seguindo uma deliberação, juízo e decisão prudente. Está vendo? Também tem aluna alto nível. Prudência, justiça e temperança. As minhas três pessoas vivem sob essa natureza que ela falou.

Muito legal. Diego, olha só, a gente está falando aqui dentro de um contexto de advogados, alguns acadêmicos, que a gente vem de uma formação deficitária, o contato com filosofia vem por conte, Marx, Engels, passando a faculdade, sem um conhecimento, profissionais que chegam na carreira, chegam para a advocacia, sem um conhecimento das tradições e dos conceitos do meio profissional muitos hedonistas, sentimentalistas, relativistas e todos, sem exceção, obrigados, se sentem obrigados a ter opinião e refletida sobre tudo. Eu gosto de pensar numa filosofia que não é só erudição, que é essa busca por essa verdade fixa e o direito Deus, essas verdades fixas no direito natural, coisas que independem da vontade humana, são imutáveis.

E a gente vive uma situação de divórcio dessa realidade. Eu salvo engano, pelo menos eu lia muitos anos atrás, que a matemática era a ciência mãe da filosofia. Eu acho que por conta dessas imutabilidades, nesses resultados certos que não vão mudar. Mas a gente evoluiu e muito embora ainda para ser um PHD, o conceito de PHD de filósofo, que conheceu os princípios e as imutabilidades da sua ciência que está envolvida, você virou um PHD. Esse PHD gerou hoje vários ramos do direito que negam o jusnaturalismo, negam a lei que transcende a vontade do homem.

A gente tem um ativismo judicial, não queria entrar nesse mérito, mas a minha pergunta é o seguinte, para esse cidadão que, como eu, está querendo ter um contato, quer ser um PhD, ser uma vida acadêmica, dando braço para a filosofia, ou seja, uma filosofia aplicada ao cotidiano, é possível ou tem que seguir esse seu caminho de vida acadêmica, fazer uma faculdade, ou é possível buscar esse conhecimento, se aprofundar mais nessa lógica filosófica? Então, Rafa, olha só, é totalmente possível. Eu diria para você o seguinte, essas minhas conquistas, que eu considero minhas conquistas, elas aconteceram todas fora do mundo acadêmico.

Por que eu fui para o mundo acadêmico? Porque em determinado momento da minha vida eu pensei assim, cara, eu estudo há tantos anos filosofia, por que não? Eu já tinha percebido como é que funcionava algumas coisas, né? Eu, por exemplo, nessa época, eu já vi o professor Olavo de Carvalho dando aula aí, já o acompanhava há muitos anos, desde 2008 ali e tal E eu pensei assim, cara Pô, mas se tá tão ruim assim o meio acadêmico, que quem encostava no Olavo de Carvalho, ele falava isso o tempo todo, né?

Eu pensava assim, pô, meu amigo, então aqueles caras lá precisam de ajuda. Você entende, Rafa? Eu não sou o tipo da pessoa que... Eu não gosto de atirar pedras num lugar sem tentar acender a luz antes. Não é muito meu feitiço. Vamos supor, se eu tivesse que falar mal de alguma coisa aqui, antes de falar mal, eu ia tentar dar uma solução possível para a coisa. Você tenta antes de tirar a areia da sandália. É isso, é isso. Acho que a gente tem que ir muito...

Eu falei, cara, por que alguém vai ficar aí só... Entende? Mas o próprio professor Olavo de Carvalho, depois de um tempo, ele dizia, olha só, a gente precisa ir para a academia. Eu já ouvia falando disso. Óbvio que o caminho dele já era de muitos anos, então, na verdade, ele saiu desse mundo para se manter na sanidade e tentar entender o que estava acontecendo. Mas eu acredito que todos nós que entendemos um pouco, E quem tem a vocação para isso, deva ir para a academia Deva ir para a academia, entende?

Fazer suas formalidades E realmente tentar ajudar onde as pessoas tomam isso com prioridade Agora, eu quando cheguei lá, meu amigo Pô, eu vou te falar que eu me esforcei muito para não desistir, sabe? Porque eu pensava assim, cara, eu acho que eu não gosto de filosofia, eu acho que eu me enganei É de verdade, estou sendo muito sincero contigo Porque eu ainda não tinha tudo muito bem estruturado do que estava acontecendo Aí eu falei, pô cara, eu não gosto disso aqui, não é isso que eu gosto O que eu gosto?

O que era aquilo que eu era apaixonado? Você entende o que eu estou te falando? Às vezes a gente entrava por esse mundo assim, sabe? Qual que é a coisa que eu tento falar um pouco na tal da live da verdade? Existe um mundo, e aí que é a coisa da lógica, eu gosto muito de lógica, sabe? Eu no colégio naval eu era monitor, eu dava as aulas de reforço para a galera de lógica, análise combinatória, matrizes, probabilidade, eu adorava essas coisas assim Depois de um tempo eu percebi que a lógica era bem frágil na busca da verdade Mas que depois que a verdade se revelava A lógica, ela simplesmente fazia uma espécie de validação, sabe?

Em que sentido que eu estou te falando essas coisas? Eu falo, olha, pela lógica, o café que eu tomei lá em São Tomé e Príncipe, ele pode tudo, ele pode ser tudo, você entende? A lógica permite tudo. Mas quando ele se apresenta, você deixa ele se manifestar, você deixa o seu intelecto passivo se transformar nele, e depois o intelecto ativo tentar ordená-lo. Quando você prova esse café, deixa de ser um pouco de ego para se tornar um pouco café, porque acontece isso na prática, né? A gente tenta fazê-lo durar mais, ou seja, a gente está amando o café.

Quando isso acontece efetivamente, meu amigo, você vê que o mundo todo das possibilidades, da lógica, ele se afunila, né? A verdade, ela realmente vai se encarnando, sabe? E você vai vendo a verdade tomar forma Até a gente ter a compreensão do que São João fala no Evangelho, no Evangelho escrito em grego, kai hologos sarxegênetos, et verbum karufaktunés. E o verbo se fez carne e habitou entre nós como uma pessoa. E você vê, caramba, a verdade tem feições mesmo de uma pessoa. Ela tem um toque, ela tem um cheiro, o café tem isso.

Quando a gente percebe essas coisas, Aí você vê o tamanho da lógica, você vê que a lógica é uma espécie de matriz de poder, mas quando a coisa vai se atualizando, e aí pela metafísica a gente sabe que Deus é o ato puro, então você vê que o mundo da lógica vai sendo podado E a gente vai chegando na verdade que ela tem todas essas características de pessoa. O que significa isso, meu amigo? Significa que quando eu já provei isso tudo, quando eu já sei tudo isso do café e se eu sou um alienado de filosofia, um alienado de filosofia, vem um cara super lógico pra mim, o máximo que ele pode fazer com a lógica dele é tentar arrumar um jeito de comprovar o que eu provei no mundo.

Pode ser pessoal, pode ser uma experiência pessoal. Pode, porque eu tô falando da justiça como justiça comutativa, porque tô falando do café. Entende? Mas quando eu senti a alegria de resolver a Olimpíada Russa lá do livro do Eureka O cara não pode chegar numa solução diferente da minha Você tá entendendo qual que é a coisa, né? Porque quando eu falo isso, você vê A ingenuidade e a pouca consciência das pessoas que hoje falam da verdade como relativa Elas falam dessa justiça inicial que eu boto, bem baixa, bem erótica que é uma justiça animalística, que Deus deu para as plantas, para os animais.

Onde que é a fonte da justiça? A justiça, o dado de manual de justiça não é dar a cada um segundo o que cada coisa lhe convém, né? Que inclusive é o fundamento da ética, né? Que é o fundamento da ética. Porque a ética não é cada ser chegar na sua finalidade. Então, alguém deu pra esse ser a capacidade dele chegar na sua finalidade. É por isso que a gente diz que o ser humano tem seus direitos, né? Ou seja, ele tá aqui. Quando a gente percebe até onde ele tem que ir, a gente fala Bom, esse caminho aqui e chegar até aqui é a ética do ser humano É uma finalidade que ele tem que atingir Então o ser humano tem direito a ter todos esses poderes do caminho para chegar até aqui Quando a gente faz esse tipo de raciocínio, a gente pode pensar assim, fala Caramba!

Então, existe uma fonte de toda justiça. Quem que é a fonte de toda justiça? Quem tem na sua mão a arquitetura de todos os seres. Quem tem a arquitetura de todos os seres que tem a sua finalidade, tem a sua justiça na sua mão. Você entende? É óbvio que quando eu tô falando de um homem comendo chocolate, eu tô falando de uma coisa que um cara pode comer o chocolate e falar, pô, isso aqui é bom. O outro falar isso aqui é ruim. Os dois são justiças.

É uma justiça para cada um. Por quê? Porque isso é o que o chocolate pode ter. Esse é o tipo de justiça que o chocolate pode ter. Só que só isso não nos satisfaz. A gente fica o tempo todo, inclusive, tentando fazer essa experiência, que é boa, durar. Você já viu quando você come um chocolate muito gostoso Aí algum cara come e fala assim, pô, chocolate é uma merda Aí você fala assim pro cara, pô, tu que não tem sensibilidade nenhuma Tu tá entendendo como é que é a coisa?

Pô, pô, não é possível, pô Entende? Você tá querendo tornar um chocolate imutável, entende? Mas não é, ele não tem poder pra isso Então deixa eu botar uma pimenta nesse chocolate aí A gente aqui, falando para advogados, é uma atividade intelectual, então é uma busca, tem que fazer um esforço e tem muito relativista fazendo interpretações. A advocacia é indispensável para a regulação das relações sociais e deveria ser mais objetiva. E a gente está vivendo um momento chamado de neoconstitucionalismo em que a alternativa é cheia de abstração.

Esse caminho é cheio de abstração. Então a gente tem princípios que servem para a defesa de qualquer argumento. Por exemplo, o princípio da dignidade da pessoa humana. Defende uma gravidez ou interrompe uma gravidez? Baseado no mesmo princípio, porque ele não é palpável, depende de uma interpretação. Que tipo de filosofia o profissional do direito deve buscar? Que tipo de análise, o encaminhamento para fugir dessa relatividade do chocolate, é bom pra mim, não é bom pra mim? É o positivismo ou é uma verdade mais elevada, mais ainda, aí a gente cai no ramo até espiritual, né?

É uma verdade divina. Então, amigo, eu só vejo um caminho pra gente conseguir ir ajustando as coisas na nossa volta, que ainda que a gente não saiba, é o que a gente faz. Olha só, vamos lá. Um cara chega pra mim, E fala assim, pô, eu fiz vasectomia, não vou ter mais filho não Aí tu começa a conversar com aquele cara Aí tu fala, cara, mas por que tu fez vasectomia, cara? Aí o cara vai dar os argumentos normais do dia a dia Quais argumentos? A educação tá muito cara e não sei o que lá E, pô, o mundo tá muito violento, sabe?

Começa a dar... Ele usa até essas teorias malthusianas, né? O crescimento populacional e tal. Ele vai falando essas coisas. Olha que coisa, né? Tudo que ele tá fazendo contigo é lógica. Você percebe? Todos são argumentos e todos são argumentos válidos. Ou seja, isso poderia, pela lógica, ser verdade no mundo real, pela lógica. Só que tem uma outra coisa além da lógica, que é o mundo real. Aí a gente olha as pessoas que vão fazendo isso, Rafael, E porra, meu amigo, a gente vai vendo nelas destruição, falta de sentido de vida, entende?

Aí tu fala assim, porra, tá vendo como é que a lógica sustenta todas essas ações? Só que no final das contas, quando essa lógica aí, essa aí que Eu considero como a mentira, quando ela vai se encarnando na vida, ela vai fazendo o que a mentira faz mesmo Ela causa divisão, ela divide roteirista, personagem e crítico Ela causa tristeza, ela causa vergonha E aí para você sustentar isso psiquicamente, você tem que começar a mudar todas as coisas dentro de você Aí tu começa a, porra, eu vou ter que...

Cara, eu tive um professor que falou assim, porra, agora ferrou, cara Eu acho que esse negócio de marxismo tá errado, mas eu passei 50 anos da minha vida Você tá entendendo qual é a preocupação da coisa? É aquilo que eu te expliquei antes, sabe, Rafael? O negócio de, cara, e quem que vai salvar a nossa psique? Você entende? Porque o cara acha que aquilo ali é o orgulho do cara, é a honra do cara Como é que a gente sai disso, meu amigo? A gente, pra ajudar as pessoas, tô te falando agora no sentido de ajudar as pessoas, olha só O cara ter esse juízo, isso é um juízo simples Educação de criança é muito caro Isso é uma verdade pra ele, ele fez esse juízo por alguma experiência do passado dele Alguém ensinou isso pra ele Ou ele viu, de repente, isso na vida de algumas pessoas que ele conhece, sabe?

Aí beleza. Aí eu olho isso. Vamos supor, estou atendendo o cara, ou estou vendo essa realidade com pessoas que convivem à minha volta. Eu falei, cara, esse juízo que eles fizeram vai ferrar a vida deles. E é simples de perceber que vai ferrar. Quer ver? Eu vou te dar um exemplo simples aqui, olha só. Eu, durante oito anos da minha vida, vivi em pastoral de rua e dormia na Presidente Vargas Custóves É uma época da minha vida solteira que eu queria ser franciscano Então eu dormia na Presidente Vargas, fiz amigos na rua, entendeu?

E conheci pessoas felizes na rua, que aprenderam a ser felizes ali, por quê? Porque viram que o materialismo estava uma merda, angariaram outros poderes, mais duráveis até E vir pessoas muito bem estabelecidas materialmente se matarem, né? Então, beleza, ok Aí o cara faz um juízo desses Pô, eu não vou ter mais filho porque educação tá muito cara Quando esse cara faz esse juízo, essa verdade na cabeça dele, Rafael Isso vai mudar a vida dele completamente, porque isso é uma ordem mental, isso é uma ordem, é uma hierarquia, você percebe?

O materialismo está acima da vida. Então, se a vida não consegue atingir esse materialismo, ela não vale a pena, você percebe? Quando o cara só faz esse juízo, meu amigo, Ele já tá botando uma possibilidade de lógica na cabeça dele Onde toda espécie de materialismo pode matar a vida humana Então se você foi estuprado, se uma mulher foi estuprada, a gente pode matar a vida humana Se a pessoa tem um problema psicológico grave ou cromossomial, a gente pode matar a vida humana, entende? Porque são coisas materiais, um juízo ridículo, né?

Amigo, como é que a gente cura isso numa pessoa? A gente cura isso pelo que eu desenhei lá, pelo hexágono da verdade Então essa é a minha terapia para o crítico Ou seja, a terceira pessoa, a que faz justiça e juízos no ser humano Como é que a gente cura isso? Ou eu começo a argumentar com esse cara no mundo das possibilidades, o que é dificílimo de fazer. Por quê? Porque no mundo das possibilidades o argumento dele também é válido. Você entende o que eu estou falando?

Desse mundo imaterial puro, que é o mundo da lógica, eu começo a trazê-lo para o mundo encarnado, o mundo da vida real. E falar essas coisas que eu falei aqui, por exemplo. Pô, meu amigo, no mundo real eu conheço gente que tem uma porrada de filho O porteiro do meu prédio antigo tinha sete filhos Eu conheço o porteiro lá que tinha sete filhos, as crianças felizes, a família dele Aí o cara... Pô, será? Eu tirei ele do mundo da possibilidade pura e levei ele para o mundo da verossimilhança, né?

Discursos de Aristóteles. Ou seja, no mundo real tem alguma coisa que se parece com esse argumento que o Diego me deu e que não é o meu. Aí, se eu começar a mostrar mais coisas para ele no mundo, existe um momento, meu amigo, e essa é a coisa da beleza da justiça, né? Existe um momento reto, que é o momento do equilíbrio da balança da justiça, de um ponto de inflexão de uma função sinoidal, onde esse cara passa do juízo dele da verdade para o meu juízo da verdade.

A gente chama isso, no discurso aristotélico, de probabilidade. Então esse cara fala assim, Eu acho que o Diego tá certo Quando isso aconteceu a primeira vez na vida dele, meu amigo, a balança da justiça humana se equilibrou no direito, você entende? No direito, tá? A direção, o reto direito da justiça, né? Porque o direito é um fruto da operação da justiça Existe até essa diferença na mitologia grega, da deusa Temis, que é a justiça pré-olímpica, para a justiça já de Zeus. Temis tem filho com Zeus e depois tem a filha Diké, de onde vem o nome grego de justiça.

Beleza. Quando essa balança da justiça passa para o meu lado, agora ele começa a olhar... Então você vê, eu estou fazendo uma terapia nele. Você percebe? Ainda no mundo imaterial, passando por material. Mas contemplativa. Contemplando... Mas contemplativa das circunstâncias da realidade, da verdade, filosófico. Sim. E aí, meu amigo, chega o momento derradeiro onde a filosofia O amor a essa verdade, a essa justiça que está despertando no coração dele, ela só tem uma vocação. Não tem mais limite agora para a lógica dele. Agora, o vai e o racha.

O que é o vai e o racha? Agora ele vai tentar tomar o café, entende? Ele vai tentar encarnar aquilo no mundo. E ele vai... Isso acontece direto comigo, cara O nego fala, eu chego no quartel e falo, pô Régis, decidi ter outro filho Tu me convenceu, eu tô te falando, é todo esse processo Até o cara encarnar no mundo E ele perceber que... Puta, cara Ele fala assim, como que nego não tem filho, cara? Que alegria gigante de uma presença, de uma verdade que se encarna na frente dele.

Você entendeu? Então, meu amigo, você vê que tem uma coisa da verdade que ela é muito pessoal, né? Eu consigo, no consultório, fazer várias coisas por você, meu amigo. Eu consigo ajudar teu crítico, ajudar teu roteirista. mas a verdade ela tem uma vocação de encarnar numa pessoa, você entende? Só você pode cheirar isso, pô. Que é uma engrenagem social incrível, né? Porque o mundo é botar as coisas nos seus devidos lugares, é um ato de justiça, é maravilhoso. Então eu vou aproveitar para pegar esse gancho e fazer outra pergunta.

Tem aquele conto do Machado de Assis, que é o... é o medalhão. Até fiz uma live com o Vitor Salles Pinheiro, seu amigo, falando sobre esse conto e a impressão que eu tenho é que o pai do medalhão, o pai do que aconselha o filho a ser um bosta, a ser um medíocre, ele teve essa transformação, essa busca pela verdade e vivia numa sociedade medíocre. Eu acho que ele não encontrou felicidade nisso e botou o filho para ser medíocre daquele jeito. O cara falava bem, tinha uma vivência, na minha interpretação, tinha uma vivência filosófica e falou para o filho renunciar aquilo tudo para poder ser feliz.

Para viver essa verdade, para viver essa filosofia na prática, eu imagino que tem que ter uma renúncia na vivência dessa filosofia. Ao aderir à verdade, a gente tem que ter uma... renúncia de uma série de coisas, inclusive de pessoas. É possível buscar, alcançar essa verdade sistematizada, com princípios, sem sofrer, sem se afastar das pessoas desse mundo atual que a gente vive? viver no mundo, nessa loucura, conseguir estar protegido por essa lógica, não é lógica, por essa verdade encontrada, que a gente adere, sem mudar de amizades.

Enfim, mudar mesmo de perspectiva. Por exemplo, eles falavam que... Esqueci o Santo Agostinho, agora não me lembro. Que amigo é aquele que ama e odeia as mesmas coisas que você. Santo Tomás de Aquino. Então, é possível viver isso com amigos que não estão abertos a essa verdade, não estão abertos a essa busca pela verdade? Então, meu amigo, olha só, isso depende do nível de maturidade de cada pessoa. Porque, olha só, acho que é uma coisa simples. Se uma pessoa ainda vive nesse nível que eu te falei da comutação, da justiça mutável Se ela ainda não tem segurança de qual é a verdade para ela Porra, eu já vi isso adoidado.

O cara vai lá, não, porque eu vou lá ajudar aquela galera lá da universidade, o caramba. Amigo, em um ano o cara está defendendo as mesmas ideias dele, entendeu? Ele falou, o que aconteceu? Ele falou, porra, você estava na mutabilidade. O cara que mudou você, porra. A verdade é essa. A personalidade mais dura é como o diamante, a cadeia de carbono. A cadeia mais dura vence o outro, porra. Não tem jeito. Então é preciso realmente a força da personalidade no sentido da unidade dessas três pessoas que fazem com que a gente tenha liberdade, Rafael, de estar em qualquer lugar com qualquer pessoa para fazer o nosso trabalho.

Então, olha só, vou te dar um exemplo. A gente pode se tornar amigo de uma pessoa que talvez não seja tão virtuosa, às vezes nem tão parecida com a gente, para ajudá-la. Você entende? A gente pode fazer isso. Eu estou te falando aqui, por exemplo, de alguns casos e até outros que eu tenho de exemplo meu pessoal, Onde eu fiz o trabalho de, cara, esse cara aqui eu vejo que ele tem dúvidas e que ele quer a verdade, sabe? Mas é um cara que às vezes ainda vive uma vida meio depravada, você entendeu?

A gente vê, cara, ali no quadro da minha sala num quadro grande cheio de santos, tem um santo lá, São Felipe Neri, né? São Felipe Neri, ele ficou famoso por umas histórias de que testaram ele levando ele pra prostíbulos, né? Na época, no século XVI, né? Na época que ele viveu, né? Pra tentarem pegá-lo com a boca na botija, sabe? Aí nego deixava ele um tempo lá, pô, aí daqui a pouco, caraca, já tem mó tempão, pô, ele já deve estar lá dentro, lá todo entregue, aí chegava lá dentro, Ele estava confessando, a mulher ajoelhada, chorando.

Entende? Tipo assim, eu estou te falando desse tipo de coisa, sabe? De um cara que tem uma justiça onde ele pode ir para transformar o meio animalesco dele numa coisa mais durável. Ele pode fazer isso, né? Agora você vê. Que tipos de instrumento a gente tem para isso? Rafael, a gente tem algumas coisas, cara. que a gente tem que saber certos poderes que a gente tem para a gente poder viver essa prática da filosofia e da verdade. Então, olha só, existe uma estrutura mitológica comum de todas as crenças humanas, onde o ser humano, ou tudo que existe nesse mundo, vem de uma passagem do caos para a ordem.

Então você vê, a mitologia grega é assim, o Gênesis é assim, não é isso? No começo a terra disforme, escura, vazia, e aí no primeiro dia cria o céu e a terra, no segundo dia... Não é assim? A passagem do caos para a ordem. E isso é muito nítido quando a gente olha a vida de uma criança. Então olha só, a gente vai adquirindo certos poderes na vida. Você vê a criança, ela começa ali pequenininha, vai adquirindo força, aí ela quer ordenar o mundo com a força.

Eu vejo meu filho tentando encaixar quadrado na bola, naqueles carrinhos, sabe? Quando ele não consegue, ele pega o carrinho e zona na parede Ele só tem força, entendeu? Ele não tem técnica, ele não tem linguagem ainda pra pedir ajuda, ele faz isso O outro filho mais velho, que já tem linguagem, ele já tentando ordenar o mundo com uma linguagem O que a gente tem de mais forte para ordenar o mundo, para ajudar as pessoas, para realmente fazer uma terapia com essa justiça imutável que é a verdade que as pessoas têm?

A gente tem algumas coisas, porque olha só, quando um filho chega na adolescência, você é advogado, né? Porra, se teu filho chegar na adolescência e falar assim, cara, eu quero ser militar, eu quero ser médico, Aí ele vai olhar pra você e vai falar assim, o meu pai tem certos poderes que não são os poderes que eu quero ter Ele não tá falando com esse linguajar, mas é isso que ele quer Aí ele vai tirar o olhar de você e vai começar a procurar os olhares dos médicos Porque ele quer ter aquele poder para ordenar o caos do mundo dele Então, por exemplo, qual que é um dos grandes papéis dos pais?

Colocar um filho diante de adultos que tenham os desejos que eles têm, mas virtudes Porque aí ele vai querer ser médio como aquele cara e vai ser generoso como aquele cara, justo como aquele cara Entende? A gente bota o pacote pra ele Porque, porra, você é advogado, se ele quer ser médico Aí tu tem um primo que é médico e é mó safadão O que você acha que vai acontecer? Ele vai abraçar o pacote inteiro Porque ele vai olhar pra uma pessoa E é a pessoa, meu amigo, que é a nossa verdade.

Tem gente que fala assim pra mim, não, porque eu fui convencido pela doutrina da igreja. Foi nada, cara. Que doutrina da igreja convence alguém? A gente sempre é amado por uma pessoa antes de ouvir doutrina. É impossível que seja o contrário. Você entende, meu amigo? No final das contas, o que a gente busca, amigo, você vê, um cara que se suicida, O que esse cara está procurando, Rafael? Um mal ou um bem? Um bem. Um alívio, né? Um bem. Nós somos feitos para o bem e a gente não consegue buscar o mal, a menos que a gente o confunda com o bem.

É o que São João Paulo II falava, o que é o pecado. O pecado é um homem tentando acertar um alvo e atirando do lado. Porque ele só consegue tentar mirar no alvo. O que um satanista, e eu já atendi satanista, é um cara que acha que o demônio pode te dar um bem maior do que Deus. Porque Deus é muito distante do homem e o demônio é mais benevolente. Ele acha isso. Então ele acha um bem, você entende? A gente tem essa... Isso é ontológico, é antropológico, é constitutivo da nossa natureza.

Então, Rafael, a gente tem certos pequenos poderes do dia que a gente pode tornar esse bem palpável para as pessoas. Você vê, uma pessoa, por exemplo, que é desesperançosa. Uma pessoa desesperançosa. O que é uma pessoa desesperançosa? É uma pessoa que tem uma lógica do mundo onde tudo é meio chato, tudo é aquilo ali mesmo, tu dá uma ideia pra ela, aí ela fala assim, já fiz isso, cara, não dá certo não, você entende? Ou seja, ela tem um logos falso de ordem do mundo, onde o mundo é uma coisa estranha, meio mesquinha, sabe?

Então ela tem essa lógica do mundo, tá? Como é que você pode libertar, por exemplo, uma pessoa dessa lógica se ela busca o bem o tempo inteiro? Com os sinais que nós temos, mesmo que a gente não saiba de onde está o bem, né? Então você vê. O que, por exemplo, é um sorriso humano? Quando que a gente sorri? Se tu tiver andando aí, o que a minha lógica e a minha estrutura do mundo diz? É que tu tá andando, tu vai continuar andando ali, né?

De repente tu sofre maior tropeção, gira duas cambalhotas e pá, se estabaca no chão. Por que que quem tá olhando sorri em determinados momentos? É óbvio, se tu não se ferrar todo, se machucar. porque ele foi libertado da lógica dele, que controla um mundo que não é controlado pela lógica dele. Então, você vê, a gente chama isso de surpreendido, surpresa, né? Que, por exemplo, surpresa é uma palavra francesa, né? Surprendre, que significa aquilo acima do que está preso. Sur, né? Em francês, acima, né? E pendre, de prisão, né?

Então, Isso, um fenômeno desse, liberta a pessoa dessa lógica atroz do dia a dia, entende? Normal e tal Aí você vê o cara que trabalha bem ou o cara que é religioso e é um cara amargurado, de cara fechada Aí o cara do lado, ele não sabe porquê, mas ele toma ranço da religião, pô Sabe porquê? Porque o amigo depravado dele, só sorri... Pô, tu vê, cara, os sites, as páginas de gaietice, tem milhões de pessoas. Por quê? Porque o sorriso é um dos maiores instrumentos que o ser humano tem pra mostrar pras pessoas onde tem o bem, você entende?

Eu sempre falo isso com a minha esposa, pô. Eu falo, cara, a gente jamais tem que ficar por aí pagando de sofrido, de que eu sou bom porque sou sacrificado, porque tenho cinco filhos e caramba, A gente tem que sorrir. As pessoas vão encontrar o bem que elas procuram se a gente sorrir. Você entende, meu amigo? Então você vê... É, aí você vê uma outra potência que a gente tem, cara. Você chega no trabalho. Aí o trabalho tá lá, né? Você chega no trabalho... Porra, se você chegou num trabalho, dominar...

Aquele ambiente, o caos Tirar aquele caos da ordem É você fazer o que com o seu olhar? é direcionar o seu olhar para um cara que trabalha bem. Porque a gente sabe que o cara que está trabalhando bem, ele está dominando um caos. E você fala, cara, aquele cara ali sabe dominar esse ambiente. E você vê a beleza dessa palavra, dominar, né? Ele é domino do ambiente. Domino, você sabe o que é no latim, né? Ele é uma espécie de Deus do ambiente. Ele dá a ordem daquele lugar.

Ele domina. Então ele é o meu bem naquele lugar, você entende? Então toda pessoa que trabalha bem, naturalmente ela vai ter corações debruçados sobre si, para ensinar a verdade que ela tem como imutável para essas pessoas. Você entende, meu amigo? Então você vê, as coisas mais banais do nosso dia a dia, que é um sorriso, que é você fazer bem as coisas que você se presta a fazer, você ver a potência que isso tem, porque isso baliza a nossa vida do dia a dia. A nossa vida do dia a dia, a sua vida, eu tenho certeza que se você fizer um exame Com as coisas que eu estou te falando, você verá que é verdade Eu fui atraído por uma pessoa primeiro Primeiro eu vi um homem, eu não conhecia um livro de advocacia primeiro Primeiro você viu uma pessoa E depois você, analiticamente, foi sendo conquistado um pouquinho pela lógica?

É, um pouquinho pela lógica. Não estou desprezando a lógica por completo, eu adoro lógica. Eu só estou colocando a lógica no lugar certo dela. Você é uma exceção, porque você... foi atrás, atraído não por um homem, mas pelo silêncio que, por acaso, tinha Deus em uma eucaristia lá naquela capela que você entrou e teve contato com a Bíblia pela primeira vez. Não foi atraído por ninguém. É, mas eu vou te falar, meu amigo. Olha só, isso, na verdade, não é uma exceção. Porque quando a gente para para pensar nesse fenômeno que você está falando de Pô, quando eu li aquilo ali, meu amigo, quando eu li aquilo ali, o que tá na minha cabeça...

Eu sabia, porque eu adoro essa coisa de você trazer a experiência individual para o imutável, que é a experiência da indução, e depois fazer o contrário, trazer o imutável para o individual através de deduções. Eu adoro esse tipo de coisa. Você vê, quando eu tô lendo essas coisas, Eu não estou lendo a lógica formal daquelas coisas, eu estou lendo a materialidade daquelas coisas. Então você vê, se eu não tivesse as pessoas que encarnavam aquilo que eu estava lendo, já dentro de mim, por presença, aquilo ali não ia significar nada para mim.

Você percebe que aquilo ali só arremonta pessoas. Aquilo só arremonta pessoas. Não tem como ser atraído por essa palavra, você entende? Você entende a fraqueza da lógica formal que as pessoas acham que a materialidade das coisas é a potência das coisas porque ela é a presença encarnada, você entende? Então você vê hoje como é que estão as coisas, né? A gente tá trocando as... Você vê, a Igreja Católica, eu sempre gostei muito de ler histórias da Igreja Católica A Igreja Católica, ela tem um grande problema que permeia toda a sua história, que se chama gnosticismo, né?

Falaram, cara, tu vê toda vez que a gente cai no gnosticismo é o quê? É quando a gente deixa aqui o mundo real e começa a subir, subir, subir, subir e vai para o mundo da agnósia Aí a gente começa a esquecer do mundo real, você entende? Eu só fui profundamente atraído por aquelas palavras porque eu li aquilo ali e falei assim, o que é isso aqui no mundo real? Você entende? E eu vou te falar, quando eu li isso, sabe o que eu remontei de imagem quando eu li o Sermão da Montanha?

Eu remontei exatamente a uma fita de videocassete que eu tinha visto da Madre Teresa de Calbutar. Você entende? Então tem até um cenário belíssimo no filme de Madre Tereza, que são os hindus discutindo lá do de fora e falando assim, ela tem que sair daqui porque ela está destruindo nossa religião, não sei o que lá e tal Aí os caras, ok, vamos expulsá-la, vamos expulsá-la, quem vai entrar lá para expulsá-la? Tu já viu o filme de Madre Tereza que eu falo? Não Aí o cara decide e fala assim para um hindu, vai você, entra lá e fala para ela sair de lá agora e ir embora do nosso país que a gente não precisa dela Aí o cara sai e entra.

Quando ele entra, Madre Tereza tá ajoelhada e limpando as feridas lá de um hindu indiano deitado lá com lepra e outras feridas, né? E o cara tá sorrindo e ela tá sorrindo pra ele, aí esse cara para se emociona, volta, sai. Tipo assim, eles, tu viu, decidiram tudo logicamente, com todos os argumentos, tudo bonitinho. Aí o cara sai e fala assim, porra, é melhor ir outra pessoa lá. Não dá não, não dá pra mim não. Porra, você entende, meu amigo? Eu falo, cara, a lógica A lógica não é nada perto da presença de uma pessoa que está realizando, que está encarnando a finalidade do homem.

Você entende? Que é sorrir e ser feliz, pô. Que é toda a filosofia das virtudes de Aristóteles, né? Entendeu? Legal, cara. Muito legal isso. Então o segredo está nessas coisas aí, meu amigo, que é a vida comum, entende? É o dia a dia, são nossas amizades, os sorrisos, as pessoas que trabalham bem. Aí está o fundamento de toda a estrutura filosófica do mundo. Essa sua experiência na Presidente Vargas me lembrou uma secretária que eu tinha, que fazia também esse trabalho, evangélica, ela ia para o... da comida para o sopão, que eles chamavam, para os moradores de rua, e ela voltava assim, doutor, mendigo não toma Ribotril, o cachorro do mendigo é obediente, tem alguma coisa errada com o mundo.

E quando os mendigos estão cheios de filhos na rua? Pois é, exatamente. Cheio de criança pequena. Você entende, meu amigo? A lógica permite tudo. Exatamente. Exatamente. Nossa, essa live aí foi muito boa. Vou ter que eu mesmo reassistir aqui e vou recomendar pra todo mundo. Maravilha, meu irmão. Foi um prazer mesmo, cara. É, não, mas espera aí, calma aí. Eu esqueci de te dizer, mas aqui tem uma tradição que a gente pede sempre pro convidado deixar um legado aí de indicação de três livros. Imagina que um seja a República.

Pô, pelo teu público, acho que a República é importante, né? Bom, eu acho que se o pessoal... Assim, eu queria muito que o pessoal... Não digo nem... Já que tu tocou, por exemplo, no professor Vitor Salles, e eu queria deixar para o pessoal sobre as virtudes, porque eu acho que o pessoal entendeu. O livro das virtudes do professor Vitor Salles é um bom livro para a galera fazer isso. E eu acho que um bom livro que o pessoal possa... Bom, a gente já falou da República, um de virtudes, eu acho que um bom livro para a galera tentar encarnar mais essa coisa da vida intelectual, ter mais esse equilíbrio, pode ser o livro do Padre Sertiões, que é a vida intelectual, sabe qual é?

Porque lá as pessoas quando se deparam com aquele livro, elas falam, bom, a vida intelectual, aí o cara começa a ver várias coisas da vida prática. Então eles tomam um susto, sabe? Entende? Então a gente consegue trazer o cara, tirar o mundo lá do mundo das possibilidades e tentar o cara permear toda a substância da vida humana que perpassa não só esse mundo intelectual desse cara aqui, do crítico, mas que também passa por esse cara aqui de sentir, de tocar um filho, de olhar nos olhos dele, entende?

que é a nossa personalidade por inteiro. Se não, a gente se perde no gnosticismo, que hoje a gente costuma chamar de idealismo. Transformar potência em ato. Professor Diego, você tem material didático a respeito das três pessoas que habitam em nós, queria ler mais a respeito. Então, isso é o que eu estou divulgando aos poucos. Eu tenho feito os cursos, aí... Em breve, em breve, vou fazer um curso mais extenso sobre isso aí, que eu vou botar todo online, e já tem um pessoal transcrevendo os cursos para virar o livro.

É que eu dei uns cursos presenciais, entendeu, Rafael, sobre isso? E é como que é o curso? É só presencial? Porque você tem um curso online também, não tem? Não. O curso presencial na época foi online, também foi vendido online, só que ele foi feito lá naquela época e acabou Eu não tenho um curso lá em alguma dessas plataformas para chegar lá agora e comprar, entendeu? A previsão é que mês que vem a gente tem esse curso, que vão ser as junções dos cursos que eu fui dando por módulos presencialmente Que é toda essa introdução dessas três pessoas, como eu faço a terapia de cada uma delas, como que é a nossa vida no dia a dia é baseado nisso aqui.

Isso aqui é uma tentativa minha de muitos anos de organizar algumas coisas, das coisas que eu fui lendo de Santo Tomás de Aquino, dos livros sobre trindade que eu sempre li muito, que são essas coisas no dia a dia. Vou divulgar quando abrir aí esse curso. Beleza, meu irmão. Bom, te agradeço. Cara, foi um prazer gigante. Essa live aí tava arrastada desde aquele churrasco lá. Gente, eu acho que é verdade. É verdade. Tem que agradecer o Adriano e a Paula Serra também, né? Isso que eu ia fazer agora.

Adriano que eu sempre perdi. Exatamente, exatamente. Muito obrigado, cara. Foi muito legal. Todo mundo elogiando que live. Parabéns pelo trabalho. Realmente um trabalho primoroso. Tenho o maior prazer em acompanhar. A minha filha, que frequenta ali o Centro Cultural da Lagoa, uma amiga falou assim, tem que ir lá no Diego Reis. Fala uma filosofia que é muito dia-a-dia e tal. Eu falei, pô, vou fazer uma live com ele, Fernando. Maravilha, maravilha. Muito bom. O importante é isso mesmo, é ajudar as pessoas no dia a dia. Acho que isso é o fundamental.

Um beijo na família toda, forte abraço. Beijão pra vocês todos também, meu amigo. Beijo pra todos aí. Fica com Deus. Em breve a gente se esbarra e se fala por aí. Falou, querido. Um abraço. Tchau, tchau. Fica com Deus. Tchau, tchau.

Série · episódio 12 de 46

Papo Matinal

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